Rumo ao final ou à cerimônia do adeus

ANTONIO BIVAR

ANTONIO BIVAR É MEMBRO DA VIRGINIA WOOLF SOCIETY OF GREAT BRITAIN, AUTOR DE BIVAR NA CORTE DE BLOOMSBURY (EDITORA GIRAFA), O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h09

V irginia Woolf - A Medida da Vida, que chega às livrarias brasileiras na próxima semana, trata - como evidencia o subtítulo original em inglês, não usado por aqui - dos últimos anos da escritora inglesa. Esses "last years", embora ao longo do livro o autor também toque nos anos de formação da biografada, na verdade se referem à última década de Virginia. Numa verdadeira tour de force, Herbert Marder vai fundo não só na vida, mas principalmente na obra da autora, mormente no que ela escreveu de 1931, ano da publicação de As Ondas, até 1941, quando ela se suicida, pouco depois de terminar Entre os Atos.

No prelúdio da biografia, Marder - nascido em Viena e criado em Nova York - conta que ainda jovem, antes de ingressar na faculdade, já devorava as obras de Virginia Woolf. Ao entrar na Columbia University seu interesse por Woolf continuou firme. Naquele começo da década de 1960, a reputação da escritora estava em baixa, mas já destinada a reerguer-se. "Em meu caso, o impulso biográfico veio em hora tardia", escreve Marder. Após três décadas de estudos, ele publicou, em 2000, pela Cornell University, esta sua biografia de Virginia Woolf, muito bem traduzida por Leonardo Fróes. O resultado de seu trabalho é louvável, embora resulte em leitura, digamos, árdua, e por vezes maçante, para os não iniciados e para, como dizia a própria Virginia, o "common reader" (leitor comum). Não obstante, trata-se de obra essencial para estudantes de literatura e da obra da escritora.

Estranho é até hoje não ter saído no Brasil a mais completa biografia daquela que é considerada a maior ficcionista do século passado, escrita, por Hermione Lee (Chatto & Windus, 1996) e nem Leonard Woolf - A Life, por Victoria Glendinning (Simon & Schuster, 2006), duas obras seminais que devem caminhar lado a lado para a melhor compreensão da vida do casal e, no caso de Leonard, sua importância, na vida e carreira da mulher, importância quase sempre negligenciada por estudiosos. Sem Leonard Woolf não haveria a Virginia Woolf que o mundo conhece. Portanto, é importantíssimo conhecer o livro de Victoria Glendinning, a primeira a se prestar, magistralmente, ao esforço. Merece tradução.

O último romance de Virginia Woolf, Entre os Atos, foi publicado postumamente, quatro meses depois de seu suicídio, em 28 de março de 1941. Virginia estava com 59 anos, dois meses e dois dias quando se afogou no Rio Ouse, meia milha da Monk's House, sua residência campestre em Rodmell, no condado de Sussex (distante pouco mais de uma hora de trem de Londres). Deixara em casa cartas para o marido Leonard e para a irmã Vanessa (que morava perto, na fazenda Charleston). Nas cartas, ela escreveu ter certeza de estar ficando louca novamente. E desta vez sem esperança de cura. Para Leonardo, anotou: "Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Se alguém pudesse me salvar teria sido você". E termina: "Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos".

Hermione Lee escreveu em sua biografia de Virginia: "A 2.ª Guerra continuava; milhões de mortes violentas. Aos contemporâneos o suicídio de Virginia Woolf foi causado pelos horrores da guerra. E também por sentir-se identificada com um período da cultura inglesa que agora parecia pertencer ao passado."

De fato, Virginia, que sempre temera a reação dos amigos e da crítica ao lançar novas obras, com Entre os Atos sentia-se mais apreensiva que nunca. Contudo, todos os que bem a conheciam tinham a certeza de que, como ela havia superado as outras crises, com tratamento e repouso, agora, sob os cuidados da médica e amiga Octavia Wilberforce acabaria superando mais essa. Todos acreditavam nisso, menos Virginia. Mesmo com a cabeça explodindo de ideias e projetos, sentia estar perdendo a energia criativa - e que seu tempo havia passado.

Em A Medida da Vida, Herbert Marder publica um apêndice com as cartas da dra. Octavia a uma amiga sobre seu tratamento da crise final de Virginia. Na última, de 19 de abril de 1941, escreveu: "Na noite de quinta-feira eu sonhei nitidamente que Virginia tinha reaparecido, viva. Foi enorme a minha decepção quando acordei e vi que era um sonho".

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