Rumo à maioridade

Maestro volta ao Brasil hoje para concertos com músicos venezuelanos

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2013 | 02h16

O maestro Gustavo Dudamel virou a sensação do mundo musical nos últimos anos, à frente dos jovens do Sistema, projeto de educação musical venezuelano que, ao reunir milhares de crianças e espalhar centenas de orquestras pelo país, tornou-se símbolo da resistência de uma forma de arte tida por muitos como moribunda. Em um negócio milionário, o maestro foi contratado pelo Filarmônica de Los Angeles em 2009. E, com sua cabeleira revolta, passou para a história como o mais jovem maestro a estar à frente de conjuntos como as filarmônicas de Viena e Berlim. Quase uma década depois, a pergunta é: o que acontece quando um menino prodígio cresce?

É o que o público terá a chance de ver daqui em diante - e, em São Paulo, ele desembarca hoje para dois concertos com a Sinfônica Jovem Simón Bolívar. Vai interpretar dois pilares do grande repertório de qualquer orquestra e maestro: a Quinta Sinfonia de Beethoven e a Sagração da Primavera, de Stravinski, cuja estreia, há 100 anos em Paris, foi um dos principais momentos de ruptura da arte no século 20. Sobre o palco, portanto, dois períodos distintos da história da música, duas obras icônicas, para as quais há centenas e centenas de registros anteriores. Nesse sentido, um programa comportado se torna um lance audacioso, talhado para um maestro - e uma orquestra - interessado em mostrar a que veio.

Dudamel não quis falar com a imprensa nesta passagem pelo Brasil - ao longo da semana, desmarcou três horários de entrevista acertados com o Estado, tanto pela Sociedade de Cultura Artística, que promove os concertos, como pela Embaixada da Venezuela. É verdade que, acima da linha do Equador, ele costuma estar mais disponível à imprensa. Mas a aversão a entrevistas pode bem ser herança de um dos seus principais mestres, o italiano Claudio Abbado. Os dois se conheceram em Caracas, nas viagens que o maestro fazia para trabalhar com os músicos do Sistema. A filiação é clara - o gestual dos dois é semelhante; o repertório de Dudamel emula em alguns momentos o de Abbado, em especial na atenção dada a Mahler; e, quando falam, ambos gostam de se referir ao fazer musical como uma forma de diálogo. "O sentido da interpretação musical é esse, precisa ser esse. E isso extravasa o mundo da música. No fundo, a questão é mostrar que arte e cultura são fundamentais na educação, na formação de um cidadão", disse, em uma rápida conversa após um ensaio em Salvador em 2011, quando esteve no Brasil pela última vez. "O acesso à beleza é capaz de reinventar a vida das pessoas, e isso leva a várias transformações."

Frases como essas revelam um maestro atento ao que se passa não apenas dentro, mas também fora do palco - e que entende que a sobrevivência da música clássica passa necessariamente pela sua inserção em um contexto social mais amplo. Ao menos foi o que disse o jornal britânico The Guardian, em 2007, quando publicou um perfil no qual chamava Dudamel de "o salvador da música clássica" - ideia reproduzida dezenas e dezenas de vezes desde então. Quando Dudamel assumiu a Filarmônica de Los Angeles, a comoção foi parecida. E sua nomeação levou uma série de orquestras a apostar em maestros mais jovens, dando forma a uma nova geração de regentes, composta de nomes como o canadense Yannick Nézet-Séguin, o americano Alan Gilbert ou Diego Matheuz, de 28 anos, outro fruto do Sistema venezuelano.

Há apenas um problema, como colocou o crítico da New Yorker, Alex Ross. Há a música feita sobre o palco, mas há também o mercado que se constrói em torno dela, com lógicas que levam, em muitos casos, a passar artistas talentosos por uma espécie de moedor. Afinal, é tão raro que uma estrela clássica se torne pop que é preciso extrair o máximo dela quando isso acontece. Se isso ajuda ou atrapalha, é uma resposta que só Dudamel poderá responder. De preferência, sobre o palco.

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