Rumo à estação Pinheiros

"Leva dez anos de faculdade para calar um brasileiro." Esta foi a frase imaginada por meu amigo Flavio Eduardo Devienne Ferreira, durante a viagem de ônibus de Campinas até São Paulo. Bom observador e ótimo contador de histórias, Flavio pegara o assim chamado "Massa crítica" - nome afetuoso, engraçado e inteligente para o busão que carrega professores e alunos para a Unicamp e a PUCamp logo cedo e os traz de volta à capital no fim do dia.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2011 | 00h00

Ele queria dizer com isto que, diferentemente do que acontece em muitas linhas de ônibus no País (e Flavio conhece um montão delas), ninguém ali dentro conversava. Todos liam. Em silêncio.

Esta imagem me veio à cabeça diversas vezes nas últimas semanas durante os meus múltiplos e cada vez mais prazerosos deslocamentos no metrô de São Paulo. Lembrei-me, também, dos velhos tempos da Varig. Quando vinha, décadas atrás, para São Paulo, da Califórnia, bastava passar pelos portões automáticos do aeroporto LAX para localizar o balcão da antiga empresa aérea brasileira. Orientava-me eu pelo som. É que ali todos conversavam com grande ânimo, mexiam as mãos e redefiniam os limites de bagagem e o conceito de fila. Pareciam velhos amigos que se encontravam após um intervalo demasiado longo, mas, verdade seja dita, acabaram de se conhecer. Já era território brasileiro. Com o passar do tempo, aprendi a saborear esse momento da viagem, que não existe mais.

No metrô de São Paulo é o contrário disso. Desde que abriu a estação Pinheiros, ando todos os dias nele. Subo a pé da minha casa até a estação Sumaré, troco na Consolação (que fica na Paulista) e sigo até a nova e bonita estação Pinheiros. Ida e volta. Leva mais tempo do que o ônibus e requer mais esforço físico. Mas diferentemente do que acontece no busão da Cardeal Arcoverde dá para ler com tranquilidade e não há o perigo de trânsito.

Sinto culpa de ter abandonado os colegas das linhas Pinheiros e Butantã-USP. Como escreveu o autor David Sedaris dos fumantes, quando ele mesmo parou de fumar, eram o meu povo - my people. Os passageiros de ônibus conversavam mais do que os do metrô - sobretudo para pedir orientações de como chegar de um ponto ao outro -, seja com o motorista, o cobrador ou com os outros passageiros, por vezes todos estes participavam da conversa ao mesmo tempo.

É possível ler no ônibus dentro da cidade de São Paulo; está aí o Butantã-USP para comprovar o fato, mas é difícil. Os solavancos constantes, mas imprevisíveis, provocados por buracos e mudanças de marchas entusiasmadas atrapalham. Minha amiga Silvana deu uma solução high-tech para o problema. Leva no busão seu leitor digital, o lendário Kindle, e aumenta bastante o tamanho das letras na sua telinha. Assim, segundo ela, dá para acompanhar a história mesmo quando se é projetado do banco para o ar e cai de volta em outro lugar.

Mas para quem, como eu, ainda se dedica à leitura em papel, não existe esta opção. O tamanho das letras é fixo. Ler no metrô, que não pula, é mais fácil e prazeroso. Parecem concordar comigo meus colegas novos. Muitos deles aproveitam o tempo debaixo da terra para ler, como eu. São, em média, quatro ou cinco leitores por vagão, de acordo com as minhas pesquisas. E ninguém faz barulho. Não se ouve conversa nenhuma. A viagem é feita em silêncio ou quase. Desconheço o motivo. Não dá para explicar o fato pela escolaridade, como fez o Flavio. Não são todos ali enfronhados em livros e jornais e revistas como acontece no "Massa Crítica".

Está aí uma pergunta boa para os seminários de brasilianismo nos Estados Unidos: como explicar a falta de conversa no metrô de São Paulo?

***

P.S. Na semana que vem, vou entrevistar os escritores Mário Prata, Reinaldo Morais, Antônio Prata e Soninha na Tarrafa Literária em Santos e ainda dar uma aula dedicada à crônica. Estarão no evento, também, Fernando Morais e Inês Pedrosa, esta direto de Portugal, entre outros grandes nomes, como Laurentino Gomes, José Hamilton Ribeiro, José Carlos Marão e Mario Bortolotto. É de graça. No teatro Guarany. Dê um pulo lá. Fica no centro antigo e restaurado de Santos. Vai do dia 24 a 28 de setembro. No sábado, dia 27, haverá pela manhã o tradicional jogo de futebol entre escritores e o Banguzinho, no CTA do Santos Futebol Clube (campo A - aquele com arquibancadas). Ano passado, o placar terminou em 6 a 6.

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