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Sérgio Augusto
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Ruminando pelos cotovelos

Em sua mais recente crônica para o El País, Enrique Vila-Matas elegeu A Mosca, de Lydia Davis, como seu conto mínimo favorito. Ainda sou mais aquele microrrelato do guatemalteco Augusto Monterroso sobre o dinossauro, mas o de Davis, com o dobro de palavras, não tem apenas o escritor espanhol entre seus fãs mundo afora. Ei-lo:

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2013 | 02h08

"A Mosca - No fundo do ônibus, no banheiro, este micropassageiro ilegal, a caminho de Boston".

Monterroso, aliás, também era fascinado por moscas, sobretudo por sua longeva presença no mundo ("A mosca que hoje pousou no seu nariz é descendente direta da que pousou no nariz de Cleópatra"), e levou para o túmulo o projeto de uma antologia literária sobre o inseto, na qual as moscas de Davis na certa estariam presentes. Sim, há mais de uma na obra da escritora americana. Esta é a minha preferida:

"A Mosca - Eu pus a palavra na página, mas ela acrescentou o apóstrofe".

A capa da edição original de Varieties of Disturbance: Stories, publicada em 2007, é uma página em branco com uma mosca pousada no meio. Na boa tradução (de Branca Vianna) que a Cia. das Letras acaba de lançar (Tipos de Perturbação, 252 págs., R$ 41), o apóstrofe virou acento, mas não deve ter sido por isso que substituíram a mosca, na capa, por um insípido ginasta, dando ao livro a aparência de um estudo sobre as perturbações mais comuns aos que se exercitam em barras paralelas.

Para um bocado de gente, Lydia Davis foi, durante um bom tempo, apenas uma renomada tradutora (de Proust, Flaubert, Maurice Blanchot e Michel Leiris) e a primeira sra. Paul Auster, com quem teve um filho e uma editora alternativa de curta duração. Muito mais gente, ao ler ou ouvir seu nome, ainda hoje é capaz de confundi-la com "aquela neurastênica atriz do Woody Allen" (Judy Davis) e com uma homônima personagem da telessérie Revenge. Não sabem o que estão perdendo. Davis é uma das escritoras mais originais e estimulantes do continente, "a maior prosadora americana", na opinião de Rick Moody, um dos mais ardorosos admiradores que ela conquistou entre seus pares. Outros tietes juramentados: Dave Eggers, Jonathan Franzen, Zadie Smith, Grace Paley, Francine Prose.

Tipos de Perturbação é sua quarta seleta de contos e a primeira carimbada na alfândega literária brasileira. São 57 textos multiformes e multidimensionais (44 páginas, uma página, um parágrafo, uma linha), prosa difícil de categorizar: poemática, idiossincrática, austera, elegante, lacônica, elíptica, concisa como um aforismo, ruminativa como um solilóquio, metafísicos "jeux d'esprit", conforme definiu alguns deles o rabugento crítico James Wood, seu mais fiel escoliasta.

Wood põe Davis no mesmo patamar de Flannery O'Connor e Donald Barthelme, e não contesta quem aponta Samuel Beckett (que ela descobriu aos 13 anos), Kafka, Raymond Carver, Bruno Schultz e Robert Walser como suas mais evidentes influências. Kafka protagoniza uma das "perturbações" da coletânea (preparando um tenso jantar para Milena) e está espiritualmente entranhado nas cinco frases que perfazem o conto A Bolsa. Depois de ler A Lagartixa, acrescentei à lista Clarice Lispector.

Moscas, lagartixa, gatos, cachorros, formigas, cavalo, besouro, esquilo, camundongos, gambá, lesma - a obra de Davis parece uma arca de Noé. Não é um bestiário intruso; os bichos são sempre coadjuvantes nessas ficções nada convencionais, com pouco ou nenhuma ação, por vezes construídas como um origami filosófico e apinhadas de mães, pais, maridos, filhos, bebês, defuntos em construção e à beira da cremação, quase sempre anônimos ou só identificados por uma letra do alfabeto. Sabe-se que algumas situações descritas foram vividas pela própria autora, mas em nenhum momento nos sentimos diante de uma reminiscência autobiográfica. Ou mesmo de uma descrição.

Paisagem e ambiente não lhe dizem respeito. Davis prefere classificar a descrever, é mais reiterativa do que convencionalmente narrativa; a maioria de suas histórias se processa na cabeça de quem as relata, mas a autora não recorre ao "fluxo de consciência" de Joyce, Virginia Woolf & cia., preferindo um fraseado direto, despretensioso, claro, perfeito para nos manter interessados em qualquer dos temas por ela tratados: dos nossos cinco sentidos à questão do bom gosto, do sexo à infidelidade conjugal, das ansiedades geradas pelas regras de etiqueta às aflições provocadas por um traque no meio de uma reunião social, da melhor forma de viver à arte de bater papo e perna numa cidade estrangeira, da dificuldade de se traduzir determinado verbo do francês ao desafio de apreciar 20 esculturas de um museu no espaço de uma hora.

Seu senso de humor, fundamental em relatos que amiúde retratam a solidão e a finitude humanas, é cool como o de um cartum da revista The New Yorker. Num microconto intitulado Nietszche (assim mesmo, com o s antes do z), uma filha confessa ao pai, presumivelmente morto: "Ah, pobre papai. Não queria ter debochado de você. E ainda por cima, agora estou escrevendo Nietszche errado".

Em outro, intitulado Solitária, uma ruminação com traços de Nora Ephron e William Hamilton: "Ninguém me liga. Não posso verificar se tem recado na secretária eletrônica porque não saí de casa. Se eu sair, talvez alguém ligue enquanto estiver fora. Aí poderei checar se há recados quando voltar".

Para fechar, esta ideia para um documentário de curta-metragem: "Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentícios tentam abrir suas próprias embalagens".

Lydia Davis já confirmou sua vinda à próxima Festa Literária de Paraty, na primeira semana de julho.

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