Ruínas vão revelar modo de vida do século 19

O cotidiano da Casa da Baronesa, fazenda do século 19 na Floresta da Tijuca, pode vir a ser reconstituído. Uma equipe de arqueólogos do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro está prestes a iniciar escavações nas ruínas, em busca de louças, materiais usados na construção da casa, e tudo o que possa ajudar a reproduzir o dia-a-dia da corte nas fazendas de café. A pesquisa depende apenas de liberação de verbas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj). Almirante - A casa foi ocupada pela família Beaurepaire-Rouhan a partir de 1810. O almirante da armada francesa Jacques Antonio Marcos de Beaurepaire havia chegado ao Brasil dois anos antes, depois de ter sido designado para escoltar D. João VI e a família imperial, que saíra fugida de Portugal. Ele queria voltar para a Europa, mas recebeu ordens para permanecer no País. Casou-se então com a baronesa D. Maria Margarida Skeys de Rouhan, e tornou-se cafeicultor na Floresta da Tijuca. Desde o fim do século XVIII, os cafeicultores vinham sendo incentivados a explorar os 3.200 hectares de terra que 300 anos mais tarde dariam lugar ao Parque Nacional da Tijuca. A área foi arrasada por queimadas. A natureza cobrou seu preço: em 1850, a cidade do Rio de Janeiro foi atingida por longa estiagem. Os estudiosos da época acreditaram, então, que a falta d´água era causada pela ausência de vegetação para proteger os mananciais que abasteciam a cidade. Teve início imenso esforço para recuperar a área, e a mando do imperador D. Pedro II a região foi reflorestada. A República não quis saber de cultuar os símbolos do Império. As fazendas dos cafeicultores ruíram. A Casa da Baronesa passou a ser conhecida por esse nome a partir de 1960, quando o pesquisador Carlos Manes Bandeira começou a estudar as ruínas da floresta - ele mapeou mais de 100, mas hoje somente 60 ainda podem ser identificadas. A fazenda dos Beaurepaire-Rouhan se estendia da Capela Mayrink até o Açude da Solidão. A sede do sítio era pequena, com varanda estreita, localizada no caminho do Matheus. Figueira - Naquela época, Manes Bandeira encontrou no local o que poderia ter sido a causa da destruição da casa: uma enorme figueira "abraçava" parte das estruturas. "Hoje até a figueira apodreceu e morreu", conta a arqueóloga Rhoneds Perez, uma das pesquisadoras. Da Casa da Baronesa, sobraram apenas os alicerces. Rhoneds e os professores Francisco Otávio Bezerra, Maria de Lourdes Lemos e Ângela Rabelo, seus colegas no trabalho, têm como ponto de partida para a pesquisa a indicação da área em que Manes Bandeira trabalhou e algumas peças encontradas por ele - maçanetas, garrafas, vidros de perfume, fivelas. Os novos artefatos que a equipe pretende encontrar farão parte do acervo do Centro de Visitantes do Parque Nacional da Tijuca. "Esse não é um parque natural, ele foi modificado pelo homem. Mas com certeza é um parque histórico, e é esse caráter que nós queremos ressaltar", afirmou Rhoneds.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2001 | 21h07

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