Rui Barbosa, 11 de setembro

Devia ter uns 10 anos. Estava ali por perto vendo meu pai se aprontar para o trabalho, mexendo em sua carteira de dinheiro, quando dela caíram algumas cédulas e um pedaço de papel. Apanhei-os do chão e lhe entreguei, perguntando o que era aquela folha branca dobrada em quatro. Ele me disse para olhar. Ali estava datilografada uma frase, que ele me mandou ler alto. Foi o que fiz um tanto intimidado, procurando dar o ritmo certo imposto pelas muitas vírgulas do parágrafo, tal como havia aprendido na escola, procurando evitar as críticas da professora: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. Rui Barbosa. Senado Federal. Rio de Janeiro. 1914."

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Embora não entendendo inteiramente o que estava sendo dito ali, acho que percebi a gravidade do enunciado, impressionou-me sua grandiloquência eufônica. Perguntei então o que significava aquilo e porque ele a levava na carteira. Meu pai, um homem de poucas palavras (e talvez por isso mesmo encantado com a retórica retumbante de Rui Barbosa), me respondeu que a frase resumia o que ele pensava da política, e que a carregava consigo para ler quando o desânimo o abatesse. Lembraria que não estava sozinho, que até mesmo um grande homem como Rui Barbosa se desesperava com o desacerto do mundo.

A leitura da frase e a resposta de meu pai tiveram um efeito marcante para mim, abrindo uma fratura na ingênua visão que eu fazia do mundo. É possível que até então candidamente eu tivesse acreditado numa meritocracia, pensasse que somente os bons, e por serem bons, chegassem aos postos de comando e poder. Assim, tomar conhecimento de que os poderes se agigantavam nas mãos dos maus era inesperado e assustador. E pensar que a honestidade fosse algo de que alguém pudesse se envergonhar por ser confundida com simploriedade! Era uma senhora reviravolta em minhas convicções.

Estava claro que meu pai condenava esse estado de coisas, mas, ao que parecia, pouco podia fazer contra. Nem ele nem o homem que fizera aquela lamentação tanto tempo antes, quando meu pai era um menino de 4 anos, pensei fazendo as contas rapidamente em minha cabeça. E aquele homem era ninguém menos que Rui Barbosa, a Águia de Haia, o famoso brasileiro que fora à Inglaterra ensinar inglês para os ingleses.

Desde então, muitas vezes me deparei com a frase de Rui Barbosa em diversos lugares e, ao reencontrá-la, sempre me lembro da primeira vez que a vi caindo da carteira de meu pai e da inquietação que me provocaram sua leitura e a subsequente conversa sobre seu significado.

Evidentemente que ela sempre me vem à cabeça ao ler os jornais e ver a enxurrada de denúncias contra os políticos, envolvidos em diversos tipos de falcatruas e roubos do erário público, e a impunidade na qual chapinham.

Passaram-se 97 anos desde a fala de Rui Barbosa, quase um século. Como ela continua absolutamente atual, uma pergunta se impõe - nada terá mudado na essência da prática política, da gestão do poder e da coisa pública no Brasil?

Se para meu pai a frase de Rui Barbosa servia de algum consolo, em mim é indignação o que ela provoca.

***

Por terem ocorrido num domingo, pude seguir mais extensamente as comemorações do 11 de Setembro pelos canais norte-americanos da televisão a cabo. Foi uma cobertura jornalística digna e não sensacionalista, que mostrou com propriedade a beleza dos monumentos construídos em memória dos mortos, a precisão coreográfica das cerimônias e rituais realizados, a participação circunspecta dos parentes das vítimas e dos políticos. Ao lado do explícito caráter fúnebre das solenidades estava presente um outro espírito, que por pouco não as transformou inteiramente numa demonstração de vitalidade, orgulho e patriotismo norte-americanos. O forte tom emocional fez com que, em vários instantes, o espectador esquecesse a imagem dos Estados Unidos enquanto império econômico, político e cultural e recuperasse sua representação idealizada, a mística da terra da liberdade e da democracia, land of the free and the home of the brave.

Em determinado momento, ao vivo na CNN, vi um soldado norte-americano entrevistando camponeses do Afeganistão na rua. Mostrava-lhes as fotos das torres gêmeas pegando fogo logo após o ataque, perguntando-lhes se sabiam do que se tratava. Os vários entrevistados disseram não ter ideia do que era aquilo. Estariam os homens mentindo, negando reconhecer as fotos do atentado por não quererem se envolver em confusões fazendo declarações para a televisão americana? Ou, de fato, ignoravam o fato que convulsionou por completo o mundo, motivando a ocupação militar de seu país? O interessante é que não dá para excluir nenhuma dessas duas possibilidades e ambas oferecem material para reflexão.

Imagino como será visto o 11 de Setembro daqui a cem anos, quando as tensões ideológicas hoje vigentes tiverem esmaecido e a forma como concebemos a própria realidade sociopolítica for outra. O acontecimento poderá então ser enfocado fora da moldura redutora e caricata de um Ocidente "civilizado" versus um islã "bárbaro e teocrata", como alguns insistem em colocar. Aliás, o próprio atentado em si - cujo planejamento e a execução exibiram inteligência, estratégia, tática, uso perfeito dos recursos disponíveis e grande habilidade para driblar os mais poderosos sistemas de segurança e inteligência do mundo - desautoriza tal visão simplista.

Essa visão futura do 11 de Setembro certamente não justificará ou perdoará, da mesma forma como faz a de hoje, os responsáveis pela morte de tantos inocentes, mas possivelmente entenderá melhor as motivações do terrorismo e seu complexo contexto.

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