Rufus, intérprete intimista de si mesmo

Cantor e compositor repassa carreira em show no qual consegue aliar técnica e emoção de forma ímpar no universo pop

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h10

Entre as pequenas grandes belezas que São Paulo preserva, uma delas foi o peculiar concerto intimista de Rufus Wainwright anteontem, no HSBC Brasil. A plateia seleta, conhecedora de causa, gratificantemente respeitosa e atenta, além de participativa, mas reduzida, um tanto aquém das expectativas, foi de maneira compensadora calorosa com o cantor e compositor mezzo-canadense mezzo-americano.

Por cerca de uma hora e meia, ele se revezou entre o piano e dois violões, alternando canções do álbum mais recente, Out of the Games (2012), com outras mais marcantes dos anteriores All Days Are Nights: Songs for Lulu (2010) e Release the Stars (2007), bem mais sombrios, e até Poses (2001), do início da carreira.

O formato foi similar ao que ele apresentou na vinda anterior a São Paulo e Rio, em maio de 2008, e daria perfeitamente para repetir o texto da ocasião: "um piano, dois violões, bom humor e lindas canções". Até quem confessadamente esperava derramar lágrimas de melancolia, surpreendeu-se com a leveza da apresentação de Rufus.

O álbum em que o show foi baseado já tem um tom mais sereno do que os anteriores, particularmente Songs for Lulu - composto e lançado à sombra da morte da mãe, Kate McGarrigle, que o acompanhou com a irmã, Martha, no Brasil, cinco anos atrás - do qual ele revisitou Martha e Who Are You New York?.

O show em nada correspondeu à sonoridade do CD Out of the Games, gravado com banda e em tom bem mais pop do que o habitual perfil operístico de suas composições e performances. Porém, ao contrário de decepcionar, foi impressionante - até para quem já o tinha visto e intencionava vê-lo de forma diferente.

Rufus é um cantor maiúsculo, dono de voz penetrante, potente, afinada e versátil, aliando técnica e emoção de forma ímpar no universo pop. A sofisticação de seu toque ao piano, bem como das canções e de seu estilo de interpretação, tanto fascina pela elaboração e pela contundência como comove pela aparente simplicidade em linguagem direta, que toca ao mais comum dos ouvintes.

Falta a um público maior se dar conta do grande cantor e melodista que ele é. E ao que parece não é particularidade brasileira. Os concertos de Rufus por outros países tendem a se realizar em lugares maiores do que as plateias que ele alcança. Não que no HSBC tenha sido frio, mas aqui, se fosse no Auditório Ibirapuera, como se sugeriu, teria sido bem interessante.

Espirituoso, Rufus fez várias referências a sua homossexualidade, seja brincando a respeito dos "homens gostosos" do elenco do filme Cidade de Deus (Fernando Meirelles), que contou ter visto no voo de vinda ao Brasil, ou em referências ao seu marido, ou às notícias horríveis que tem recebido a respeito dos riscos eminentes aos direitos gays no País, com a campanha terrorista de certos políticos evangélicos.

Como uma espécie de Nana Caymmi, que primeiro arrasa em canções para cortar os pulsos, para depois amenizar as feridas com pinceladas de cicatrizantes, ele fez muita graça entre uma pedrada comovente e outra. Fez questão até de tocar uma única música com um tosco violão que comprou numa viagem à Coreia e que traz adesivos da personagem infantil japonesa Hello Kitty.

No repertório, não faltaram canções que o público esperava como Cigarrettes and Chocolate Milk, Going to a Town e Hallellujah (Leonard Cohen), da trilha do filme Shrek, que ele tocou na sequência de Memphis Skyline, depois de contar uma longa e bela história sobre seu amigo, o soberbo Jeff Buckley (1966-1997), que tem forte relação com essas duas canções. Entre o kitsch, o barroco, o passional e o cômico, Rufus trouxe uma surpresa para o bis, distribuindo instrumentos de percussão (tambor, caxixi, maracas, pandeiro) para o público acompanhá-lo numa tentativa de dar um toque de samba à divertida versão de Candles. Ficou um gosto de "quero mais" e uma sensação de algo revigorante, numa noite particularmente palatável na intimidade de quem transborda substâncias saudáveis. Sorte de quem soube assimilar com propriedade.

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