Rubens Ewald faz interpretação budista de Hamlet

Logo no início do espetáculo, Hamlet está morto no palco, envolto em tecido. Em torno dele, um ritual que, aos desavisados, lembra uma dança circular tribal com coreografia orientalizada. Na verdade, trata-se de uma dança fúnebre oriental, "citação explícita do filme Sonhos, de Akira Kurosawa", diz Rubens Ewald Filho, conhecido crítico de cinema que faz sua segunda incursão ao teatro com Hamlet.Gasshô, uma visão budista da tragédia de Shakespeare. A adaptação do texto é do ator Germano Pereira - o protagonista - e Rubens faz questão de frisar que seu trabalho foi o de criar ambientação cênica que pudesse traduzir no palco essa visão, mas com o devido distanciamento. "Estou fazendo teatro, não religião." O teatro de sombras na representação em que o jovem Hamlet (Germano) desmascara o seu tio, o Rei Claudius (ZéDú Neves), que assassinara o velho rei, seu irmão e pai de Hamlet, para casar com a Rainha Gertrudes (Ondina Castilho); citações visuais a filmes como "Lanternas Vermelhas", de Zhang Yimou; e luta oriental no duelo são algumas das imagens criadas pelo diretor. "Na visão budista, Hamlet está no bardo, nome dado a um tempo de passagem depois da morte, no qual ele revê seus atos", diz Germano. Mais que um simples balanço, o personagem terá a opção de perdoar e renascer em outro estágio ou repetir seu processo de sofrimento. "Estaríamos traindo o personagem se ele se iluminasse, perdoando sua mãe, seu tio e Ofélia (Mariana Leme). Ele tem a chance, mas não perdoa. O que fazemos é apontar essa possibilidade." Nessa leitura, que contou com a importante consultoria da monja Coem, o famoso monólogo do ?ser ou não ser? é deslocado para o fim e a morte ganha novo sentido. "Quantas vezes esse monólogo é realmente entendido?", pergunta Rubens. "Buscamos isso", diz Germano. Já a cena em que Hamlet pede aos atores moderação nos gestos e na voz, que não exagerem vícios ou virtudes, que sejam ?espelho da natureza? foi para o prólogo. Carta de intenções? "Isso mesmo", diz Rubens, que eliminou ao máximo maquiagem e elementos de cena, em sua busca por limpeza e verdade. Quem odeia leituras radicais pode ficar tranqüilo: com exceção de prólogo e epílogo, a adaptação é bastante fiel ao original, com cortes. Hamlet.Gasshô. Espaço dos Satyros Dois. Pr. Roosevelt, 124, tel. (11) 3258-6345. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 20h30. R$ 20. Até 31/3L

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