Rubem Fonseca está de volta com sua faca afiada

O escritor que inaugurou a moderna literatura urbana no Brasil, ao revelar as entranhas da sociedade e antecipar a escalada de violência no País, continua fiel às suas convicções, como demonstra em Mandrake: A Bíblia e a Bengala (200 páginas, R$ 32). Com seu novo romance, Fonseca volta ao policial, gênero que retomou o fôlego no Brasil quando ele passou a se dedicar com mais empenho, especialmente ao usar e abusar da temática da violência. Publicado pela editora Companhia das Letras, o romance chega às livrarias neste sábado, com uma tiragem inicial de 15 mil exemplares. São as novas aventuras de Mandrake, um alter ego sem grandes retoques de seu autor: ex-policial, advogado, erudito, obsessivo, paixão incontrolável por mulheres e até felinófilo. Na verdade, Mandrake é um velho conhecido dos adoradores de Fonseca. Sua primeira aparição aconteceu em Lúcia McCartney (1967), no conto O Seqüestro de F.A.. Reapareceu em Feliz Ano Novo (1975) na história intitulada Dia dos Namorados e se tornou o protagonista do romance A Grande Arte (1983). A última aparição ocorreu na novela E do Meio do Mundo Prostituto só Amores Guardei ao Meu Charuto (1997). Mandrake: A Bíblia e a Bengala reúne duas aventuras do detetive que, apesar de pontos coincidentes, apresentam características distintas. Na primeira, o advogado/detetive, cujo nome é sugestivo não apenas pela referência ao herói mágico das histórias em quadrinhos, mas também por ser mandrágora, planta usada em feitiçarias na Antiguidade e Idade Média, investiga o furto de uma Bíblia rara, impressa por Gutenberg. E, na seguinte, a bengala de Mandrake o torna suspeito de um crime passional. Como de hábito, as histórias de Fonseca empilham cadáveres, mas não escondem uma ironia incomparável. A literatura de Fonseca é uma faca constantemente afiada.Obra oferece pistas sobre o escritorRubem Fonseca não gosta de dar entrevistas e pouco se deixa fotografar, com exceção de eventos no exterior. Assim, Mandrake: a Bíblia e a Bengala, da mesma forma que obras anteriores, oferece pistas sobre a rotina e as preferências do octogenário (aniversariou em maio) escritor. Algumas são óbvias: Mandrake é advogado (Fonseca formou-se em direito) e tem no delegado Raul (o escritor também foi comissário de polícia) seu melhor amigo. Juntos, compartilham prazeres que, além de mulheres, se concentram nos vinhos portugueses e nos charutos cubanos (duas paixões de Rubem Fonseca). Mandrake também acorda de madrugada, acessa diariamente a internet e gosta de ver o sol nascer na praia, todos hábitos conhecidos do autor.A atualidade dos fatos é outra característica de sua obra, o que a torna extremamente contemporânea, como as referências a roubo de material valioso da Biblioteca Nacional (assunto que ainda ocupa os noticiários atuais) ou mesmo a chantagem sofrida pelo rico empresário, envolvido com uma jovem que espertamente reteve resquícios de seu sêmen na saia para utilizá-los como prova.

Agencia Estado,

29 de julho de 2005 | 19h57

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