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Roberto DaMatta
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Ruas sem nomes

 No início dos anos 1960, quando fiz minhas primeiras visitas aos povos gaviões e apinajés, eu saía do Rio para Goiânia e, desta cidade, que naquele tempo tinha “footing” – moças caminhando de um lado e rapazes do outro na sua praça principal –, seguia num prateado avião C-47 da Real, Cruzeiro do Sul ou da Paraense Transportes Aéreos, para Marabá ou Tocantinópolis, em voo visual sobre o rio Tocantins.

Roberto Damatta, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2015 | 02h00

À medida que deixávamos os extremos urbanizados (Goiânia ou Belém), o avião pousava em cidades com ruas sem nomes e, após paradas de dias ou semanas numa delas, seguíamos para os povoados e para as aldeias onde viviam o que os locais chamavam de “caboclos” – os grupos tribais que íamos estudar –, conforme rezavam nossas solenes credenciais escritas impecavelmente à maquina e devidamente assinadas pelo diretor do Museu Nacional onde trabalhávamos.

Tais cartas pediam colaboração e garantiam quem éramos. Depois do golpe militar, elas seriam providenciais para sustentar que aquele sujeito de barba preta e cabelo pedindo barbeiro, de camisa enxovalhada e tênis sujo, acompanhado de enormes caixas, não era um subversivo, mas uma criatura muito pior: um idiota que pretendia entender seres humanos cuja cosmologia era diversa da ocidental.

A loucura do projeto contrariava a opinião de Mark Twain, quando ele asseverava: “Tudo o que eu preciso saber é que o homem é um ser humano. Isto é suficiente para mim, pois ele não pode ser nada pior!”. Tivesse lido o escritor antes dos meus mestres, eu teria ficado em casa. Pois aqueles que viviam próximos das aldeias, em ruas sem nome e em casas sem número, não entendiam como é que nós, rapazes obviamente “finos”, íamos viver com aquelas humanidades para eles indistinguíveis dos animais.

A primeira luta era contra o nosso próprio preconceito, depois o dos regionais. A segunda, era chegar às aldeias. O mundo da luz elétrica, hospitais, escolas, chuveiro quente, latrinas, cerveja gelada e movimento ia se desvanecendo à medida que éramos envolvidos pela mata ou pelo cerrado do coração do Brasil.

Mas antes do silêncio de meio-dia das aldeias, eu tinha que passar pela pensão, que era o último hotel, e pelas agências do correio e do banco. Lá, encontrávamos o Roosevelt, um gerente simpático que abria a conta onde depositávamos um cheque visado, o qual ia segurar as despesas dos meses de pesquisa. Desse parco dinheiro, sairia uma inesquecível vivência e, se tudo desse certo, um relatório ou livro baseado na voz dessas humanidades alternativas e divergentes.

O banco ficava perto da única loja onde tudo era vendido. Eu comprava querosene, bolachas e pilhas. Pilhas para a lanterna, para o rádio e para o colossal gravador de fita no qual registrei, sem entender, muito mito, muita fala e muita música. Da loja ao bar do Caxixê, era um passo, e quando ia comprar mantimentos na “rua” (assim a cidade era chamada pelos sertanejos), eu tomava uma cerveja gelada, no mais das vezes choca, com os dignatários locais desconfiados, com razão, com quem vivia “no mato”, o que dava asas a piadas infames, tipo: “Este é o mestre Roberto DaMatta, que vive no mato com os índios!”.

Entre insultos de regionais e dos nativos (que me chamavam de Boca-Cabeluda), eu soube da história do bancário Franklin Roosevelt. Ele era um dos cinco filhos do dono do bar, o velho Caxixê, um maranhense baixinho e astuto. Corria a lenda que havia enriquecido vendendo tudo: até mesmo palitos de fósforo, com os quais acendia o cigarro de um freguês. Dele ouvi que o Roosevelt era o mais velho; a seguir vinha o Churchill, o Stalin (apelidado de Estalinho), o Getúlio e, por fim, o Charles (cujo sobrenome não era corretamente falado, pois soava como “degola”, mas era o De Gaulle).

Diante da minha patente curiosidade, o pai foi claro: “Quis homenagear os líderes da guerra!”. E, sobre o Stalin, completou: “O nome não é a pessoa”. E disse mais: na hora de comer, era engraçado ver como Roosevelt recusava passar o arroz para o Stalin, enquanto Churchill cortava a carne para o Getúlio, observado pelo Charles...

Calei-me. Afinal, fazemos os nossos filhos e lhes damos nomes que podem amar ou execrar. Não escolhemos nossos pais que, por sua vez, nos nomeiam disso ou daquilo porque sem um nome não nos tornamos parte de alguma coisa. Ademais, podemos mudar nossos nomes. Nomes, sem dúvida, inspiram, mas nenhum nome determina uma vida.

Quando li no Globo do dia 15 que a rua Santa Luzia, a protetora dos olhos, amanheceu com o nome de Marechal Josef Stalin, o inigualável déspota, lembrei-me dessa minha vida entre índios e povoados com ruas sem nome. Hoje, dia 16, leio que tiraram a placa. Aguardo, quem sabe, mais um debate inútil porque o sério e, sobretudo, o honesto eu não espero mais.

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