"Ruas literárias", registradas em fotos

Batizar ruas virou hábito de administrações municipais ansiosas por homenagear pessoas ou datas importantes e, assim, angariar popularidade entre os cidadãos. Mas uma exposições que abre nesta sexta-feira no Sesc Vila Mariana tem o poder de mostrar que em São Paulo, várias vezes, as homenagens não saem como esperado. Pelo menos no que diz respeito às ruas com nomes de grandes escritores brasileiros. Ruas Literárias, mostra de fotos de João Corrêa Filho, apresenta um registro de como estão hoje ruas que ganharam nomes de autores da literatura brasileira. São ao todo 17 fotos em preto-e-branco feitas em ruas que, pelo nome, inspiram importância: Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Murilo Mendes, Torquato Neto, Cecília Meirelles, Mário de Andrade, Vinícius de Moraes, Clarice Lispector e Machado de Assis. Mas quase todas essas ruas não correspondem à importância que os autores têm na literatura.Para fotógrafo João Corrêa Filho, com exceção da rua Machado de Assis, no bairro da Aclimação, todas as outras são ruas pequenas ou mal cuidadas. O caso que pode despertar mais dó é o da rua Clarice Lispector. Localizada no bairro do Rio Pequeno, a rua ?tem um despejo de entulho e uma favela atrás?, como conta o fotógrafo. Outro exemplo de descaso é a rua Murilo Mendes. O escritor mineiro está homenageado em São Paulo com uma rua sem asfalto. ?A rua é de mato e terra?, diz o fotógrafo. ?Lá, pelo mapa, fica a parça Chá da Alegria, mas na realidade o que há é um monte de mato.? A rua Murilo Mendes, ou o que restou dela, fica próxima a uma das saídas do campus da Universidade de São Paulo, na zona oeste da cidade. João Guimarães Rosa é um escritor indispensável em qualquer seleta de literatura brasileira e, quem sabe, mundial. Mas a rua que leva seu nome em São Paulo ?é uma rua estranha, que passa quase despercebida?, diz João Corêa Filho. Ela fica entre as ruas da Consolação e Augusta. A rua que celebra o poeta piauiense Torquato Neto também não vai bem. ?Lá é um local para onde vão refugiados de guerra da Colômbia, da Bolívia, do Congo e de outros países, que ficam no albergue Arsenal da Esperança?, diz João Corrêa. O autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas é o único, na visão do fotógrafo, que tem uma rua à altura em São Paulo. ?É uma rua antiga, é residencial e tem 10 quadras. É uma rua mais clássica.? Uma indagação sobre se haveria relação entre as ruas e os escritores que as batizaram foi o que motivou o fotógrafo a realizar a exposição Ruas Literárias. Ele descobriu que não existe relação, mas a busca rendeu um interessante conjunto de informações sobre a cidade.

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