Rua Professor Antônio Prudente

Antes de sair, contei uma piada e ela riu muito. Dei um beijo nela e disse 'eu te amo, nega'

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

12 Março 2017 | 02h00

Rua Professor Antônio Prudente, 211. Talvez algum dia eu esqueça meu próprio endereço, mas desse eu sei que não me esqueço mesmo que queira. Era lá. Descia na estação São Joaquim, andava 3 quadras na Vergueiro e entrava na Antônio Prudente com a mochila nas costas.

Esse não era um bom ponto de encontro para um grupo de amigas de 18 anos. Era bem melhor ser o Parque Ibirapuera ou o Chicohamburger. Mas era lá no A.C. Camargo, belíssimo eufemismo para o hospital do câncer, onde nós passávamos nossas noites de sábado, nossas tardes de domingo e o entardecer durante a semana. Era lá.

No início de 2006, nossos planos eram bem diferentes. Imaginamos viagens nos finais de semana e noites intermináveis com brigadeiro e DVD repetido. Não planejamos aquelas entregas de comida pálida no quarto, nem as jarras de contraste antes das tomografias. Mas foi o que a vida trouxe e era lá que a gente vivia nossos dias porque nenhum dos nossos planos fazia sentido se estivesse faltando uma. E se uma estava na Antônio Prudente, 211, todas estavam na Antônio Prudente, 211.

Aprendemos todas as rotas. Alguns se julgavam íntimos do hospital porque sabiam o roteiro crachá-elevador-quarto. Mas esse não era o nosso roteiro. Diariamente, extrapolávamos o limite de 3 visitantes. Sabíamos passar pelos fundos do Rei do Mate, pegar a escada dos médicos e subir sem crachá. O amor tem dessas marginalidades.

Conhecemos muito andares, incluindo o da pediatria. O da pediatria era mais colorido e mais dolorido que os outros. Os vizinhos doíam mais. Conhecemos o cardápio do Rei do Mate de trás para frente, até o cheiro do pão de queijo tornar-se insuportável. Conhecemos cada um dos sofás da recepção. Os restaurantes por quilo do bairro. As calçadas nas quais desmoronamos algumas vezes.

Nós chegamos quase a nos habituar. Nas primeiras semanas, achamos que era um endereço passageiro. Nas semanas seguintes voltamos contrariadas. Nas subsequentes já não questionávamos mais. Levávamos material para estudar, esmalte para pintar as unhas, panelas de brigadeiro e até um aparelho de DVD. Não desistimos dos planos, apenas mudamos o endereço.

Há quem diga que a gente cresce quando sai da casa dos pais. Eu digo que a gente cresce mais na Rua Antônio Prudente, 211. Entramos ali meninas, preocupadas com provas, sofrendo por amores não correspondidos, nos queixando da demora do metrô enquanto esperávamos na plataforma. Saímos de lá mulheres, preocupadas em permanecer de pé, sofrendo por não podermos fazer mais nada, nos questionando sobre o sentido da vida.

Houve um dia no qual eu corri para fora do hospital e me sentei na sarjeta, chorando com os olhos, a garganta e estômago. Uma desconhecida que saía do hospital veio até mim, colocou a mão no meu rosto e disse “o que quer que seja, uma hora vai parar de doer”. Eu nunca esqueci seu rosto. Eu tinha 18 anos.

A Má passou seu último final de semana conosco. Sábado à noite, estávamos todos lá, não faltava ninguém. Antes de sair, eu contei uma piada e ela riu muito. Nunca consegui lembrar qual foi a piada. Dei um beijo nela e disse “eu te amo, nega”. A Má morreu num domingo, há 10 anos. Um mês antes, ela tinha completado 19 anos. E houve festa. Hoje ela faria 29.

Na Rua Antônio Prudente, 211, nos despedimos. Escolhemos o vestido azul e o chapéu marrom para ela se despedir dos demais. Entrei no carro dos meus pais naquele domingo e eu já não tinha mais 18 anos. Não sei quantos anos eu tinha, nem sei quantos anos eu tenho. Talvez 211.

Mas eu sei que a moça tinha razão. Já não dói. Ainda é uma grande nuvem confusa que nunca deixará de ser, mas já não corta o peito, só aperta. São saudades e hipóteses, não são navalhas. Exceto o cheiro do pão de queijo. Esse ainda invade, revira e dói. Esse eu nunca superei.

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