Roupa suja se lava on-line

Não é preciso viver sob um regime ditatorial para sofrer de autocensura. Não falo da autocensura que afeta o trabalho de jornalistas ou a expressão de escritores. Falo da censura à palavra escrita nas comunicações pessoais e profissionais. Como a conversa ao telefone vai sendo gradualmente extinta e os jovens preferem escrever SMSs a falar a dois metros de distância, cada um de nós é repositório de oceanos de palavras arquivadas na eternidade digital.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2013 | 02h06

Pense, por um momento: se alguém hackear seu email e, por esporte, decidir abrir um website com os últimos dez anos da sua correspondência, qual seria sua reação? Pedir para ser adotado por uma comunidade de esquimós Inuit na Groenlândia? (advertência: a internet, lá perto do Polo Norte, é melhor do que em boa parte do território brasileiro). Ingressar numa ordem religiosa que impõe clausura e silêncio? Esse cenário pode parecer improvável, mas o fato é que a privacidade da comunicação digital nos últimos 20 anos depende do que se poderia chamar de acordo de cavalheiros. Um pacto não declarado de honra impede que ex-amantes, ex-amigos, ex-colegas se exponham, uns aos outros, ao vexame que consumiu a atenção de Manhattan, mais exatamente a ferina comunidade teatral da Broadway, no fim da semana passada.

O explosivo (e excelente) ator de cinema Shia LaBeouf anunciou a decisão repentina de sair do elenco da peça Orphans, que marcaria sua estreia teatral. O elenco tem ainda o volátil Alec Baldwin e o possivelmente masoquista diretor Daniel Sullivan que, agora sabemos, foi alertado sobre colocar os dois notórios brigões no mesmo palco. E por que sabemos disso? Porque Shia LaBoeuf achou por bem tuitar os emails privados que trocou com o diretor, com Baldwin e com o outro colega de elenco, o britânico Tom Sturridge. Orphans é uma peça de Lyle Kessler e conta a história de dois irmãos que sequestram um gângster.

Alec Baldwin pertence a uma geração para quem roupa suja se lava em casa ou, no máximo, num livro de memórias, como o que ele escreveu após ser azucrinado pela ex-mulher Kim Basinger. Shia LaBeouf é da geração que prefere mastigar de boca aberta. Jogou no Twitter, sob pretexto de ser um sincero virtuoso, palavras dirigidas a ele pelos atores e pelo diretor que, expostas à atmosfera, devem estar surtindo o efeito de uma bomba mal cheirosa nos ensaios da peça que começa encenações prévias em março. É claro que a imprensa nova-iorquina não faz outra coisa senão telefonar para as partes envolvidas, e cada um sobe no seu cavalo branco para se distanciar da baixaria. "Se você não tem nada a esconder, não tem nada a temer", gostam de dizer variados defensores da invasão da privacidade. Caca de galinha, respondo. Todos temos muito a esconder, não só os que vão buscar a mala de dinheiro, os que têm conta na Suíça e os que têm caso com a mulher do melhor amigo.

É impossível manter a civilidade nesse clima de aquário, em que somos constantemente avaliados, não pelo conteúdo das nossas ações num determinado momento, mas no cruzamento de informações fora de contexto, de fragmentos que não compõem um todo, mas destroem relacionamentos e reputações.

Hoje à noite, num auditório de Manhattan, a escritora Jamaica Kincaid será sabatinada numa entrevista pública sobre seu primeiro romance em dez anos, See Now Then (Veja Agora Então), e duvido que escape à sensação de ser um peixe no aquário.

A trama do livro é evidentemente paralela à da vida de Kincaid, cujo casamento de 23 anos com o compositor Allen Shawn terminou quando ele a trocou por uma jovem pianista japonesa. A crítica mais interessante que li sobre o romance foi de um jornalista da Costa Oeste, que confessou não saber os detalhes da vida pessoal do casal, bem conhecido por aqui. Pouco antes de concluir a leitura, ele "googlou" os detalhes. Mas se arrependeu. Recomendou ao leitor não fazer o mesmo e que, primeiro, desfrute o livro pela obra de arte que é.

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