Rotina jovem: quatro horas de TV por dia

Quando está em férias, a estudante Karin Gabriele Levay, de 15 anos, diverte-se de várias formas, mas a televisão ocupa boa parte de seu tempo: ela passa, em média, de três a quatro horas diante do aparelho. Assim como Karin, o adolescente brasileiro também passa em média quatro horas por dia na frente da televisão. São mais de 21 milhões de garotos e garotas entre 12 e 17 anos, que representam 12,3% da população brasileira e que gostam do que assistem. O perfil foi traçado a partir de algumas das conclusões do estudo A Voz dos Adolescentes, realizado pela Unicef em 2002 e reunido agora no livro Remoto Controle (336 págs., R$ 33), um lançamento conjunto da Andi, Unicef, Petrobrás e Cortez Editora, já nas livrarias. Trata-se de uma alentada pesquisa, realizada a partir de uma análise de dez programas da TV brasileira dirigidos ao jovem. O estudo concluiu que pouco mais da metade (51%) dos adolescentes tem na televisão sua principal fonte de diversão e a grande maioria (63,4%) considera a programação veiculada pelas emissoras como de boa qualidade - novelas e minisséries estão entre os preferidos pela moçada em vez dos programas preparados especialmente para sua faixa etária. Malhação, da Globo, é única exceção e mesmo assim não escapa de críticas à sua superficialidade. A emissora, preocupada com a audiência, foi mudando, ao longo dos anos, a estrutura do programa, que hoje é menos preocupado em apenas retratar o ambiente de uma academia e mais focado em colocar problemas reais, como choque de gerações. Mesmo assim, as alterações buscam mais aumentar o número de telespectadores do que informar. E a constatação partiu dos próprios profissionais da tevê. "O que vejo é um número maior de produções, mas pouca variedade e qualidade", comenta Serginho Groisman, apresentador do Altas Horas, um dos entrevistados pelos organizadores do volume. "É característica da tevê, pressionada pelo tempo, ser muito superficial: nenhum jovem pode achar que a televisão é o suficiente para se informar." E conclui: "No Brasil, se vê muito mais tevê do que se deveria. Para ser bem informado é preciso ter uma boa leitura, ir ao cinema. Não dá pra ficar só com a televisão." E por que a garotada assiste tanto à tevê? As respostas vieram com a pesquisa Jovem Brasil, realizada pela CPM Market Research e que complementou a da Unicef: para a maioria, é "falta do que fazer". Em seguida, foi "para ter informação". Outras justificativas: "para me divertir", "para relaxar" e "para não pensar nos problemas". Os pesquisadores convidados pela Unicef para avaliar a pesquisa perceberam que "falta do que fazer" significa, para jovens das classes menos favorecidas, literalmente a ausência de alternativas de lazer. A isso se soma ainda o fato de que muitos desses jovens, nos grandes centros urbanos, vivem acuados pela ameaça da violência. É o que pode explicar o perfil particular de cada região brasileira. No Sul, por exemplo, os jovens da classe C são os que mais assistem à tevê (quatro horas e 16 minutos em média), enquanto no Nordeste a situação se inverte: adolescentes da classe A passam mais tempo em frente do aparelho (quatro horas e 41 minutos por dia). De maneira geral, a faixa etária dos adolescentes que mais preferem a tevê é a de 12 a 14 anos. É um público especial e que as emissoras ainda não descobriram como tratar de forma adequada. "Quem vai ao (meu) programa não tem compromisso com jornal, com editora. Muitas coisas que o jornalista tem vontade de perguntar, mas não tem coragem, são questionados nesse espaço", comenta Groisman no livro. De fato, foi em seu Programa Livre (SBT) que, em 2002, o então candidato Fernando Henrique Cardoso ficou impaciente com as questões diretas de um garoto da platéia.

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