Roteiro para melhor capitalismo

O maior problema de Dilma Rousseff e José Serra não é a falta de carisma, é a falta de capitalismo. Toda a melhora do Brasil nos últimos quinze anos está relacionada ao desenvolvimento e à integração que a economia moderna requer, como a abertura comercial, o rigor monetário, a competição criativa, o incentivo financeiro; aquilo, enfim, que Marx chamava de "liberar as forças de produção". É isso que explica que boa parte do crescimento atual esteja relacionado ao consumo, à expansão da classe média - graças a medidas como fim da inflação alta, as privatizações (lembra quando apenas 10% da população tinha telefone e uma linha custava R$ 5 mil?) e a ampliação do crédito. Mas os dois candidatos mais cotados parecem compreender isso apenas parcialmente.

Daniel Pizza, daniel.pizza@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

O que o Brasil vive no momento é um vigor capitalista, no melhor sentido da palavra. Não se trata do capitalismo selvagem, mas do capitalismo democrático, que faz o bolo crescer e ser dividido ao mesmo tempo. No regime militar, Delfim Netto dizia que primeiro o bolo tinha que crescer; a esquerda, antiliberal de outra maneira, respondia que só era possível dividir o bolo tirando-o da boca dos abonados. Com atraso de meio século, o Brasil agora percebeu o que os países desenvolvidos tinham percebido: que uma economia saudável é a que cresce para o máximo possível de pessoas, gerando emprego para que os assalariados possam comprar o que desejam. O Estado não é dono do mercado, mas deve ser seu parceiro (inclusive ao amparar os que não têm renda suficiente para consumo) e seu fiscalizador.

Mas ainda há muito por fazer, e o chato é que o (a) próximo (a) presidente deveria estar ciente disso. Temos uma carga tributária pesada e, mais importante, contraproducente, que pune quem deveria ser estimulado; veja a legislação trabalhista, que obriga o empregador a gastar o dobro do que paga ao funcionário. Temos um dos piores ambientes de negócios do planeta, atravancado por burocracia, corrupção, impunidade e desorganização; abrir ou fechar uma empresa sem ser escorchado por fiscais é um parto, ou mais demorado que uma gestação. E temos uma educação de terceira categoria, que não prepara os jovens para o mundo contemporâneo, deixa metade deles pelo caminho e tem aguda carência de engenheiros, cientistas e técnicos em geral.

Dilma e Serra mal falam disso com as devidas clarezas e ênfases. Ela continua enigmática, cada hora apontando para um lado, mais intelectualmente confusa que seu padrinho político. E é um símbolo do segundo mandato de Lula, ou seja, das tentativas de reforçar o papel do Estado intervencionista, por meio de bancos públicos, criação de estatais (a mais nova é a da área de seguros), controle da informação, fundos de pensão, aumento de servidores, etc. Como os institutos de pesquisa a soldo do governo, defende a gastança crescente do dinheiro do contribuinte com argumentos frouxos sobre a suposta "volta do Estado", esquecendo que os governos deram dinheiro para as financeiras e não tiraram. E ela representa o modo de pensar e agir do velho PT, como mostram os episódios do programa de governo e do dossiê contra Eduardo Jorge.

Serra é mais experiente e mais informado a respeito de economia e administração, mas volta e meia deixa escapar uma visão pseudo-keynesiana (sempre é bom lembrar que Keynes era um liberal, a favor da economia do mercado, defensor do papel do Estado no socorro das crises, não na sangria dos cidadãos), como em suas declarações sobre o câmbio, com teses obscuras como aquela da "lei de responsabilidade cambial". Também fez pouco pela redução de impostos e sua campanha no momento está mais concentrada em dizer que fará melhor o mesmo, como se fosse escrever mais um capítulo da política tucano-lulista de capitalismo envergonhado, baseada em estabilidade & assistencialismo, não em reformas sérias. Continuísmo por continuísmo, não espanta que Dilma tenha empatado com ele nas intenções de voto.

Dito cruamente, a maioria da população é capaz de discordar, mas o fato é que quer acima de tudo o capitalismo de consumo - e o quer cada vez mais livre de juros absurdos (11% ao mês no cartão de crédito) e regras cartoriais. O novo governo deveria seguir esse roteiro, sob pena de derrapar na curva ascendente.

Cadernos do cinema. Difícil dar para O Escritor Fantasma, de Roman Polansky, mais que três estrelas. O argumento é interessante, hitchcockiano, mas o filme promete bem mais do que cumpre. Poderia ser definido como um thriller político, mas deixa a dever como thriller e explora pouco o componente político. Assim como no mais recente Martin Scorsese, o cenário é uma ilha onde tudo parece ser fajuto, mas A Ilha do Medo tem muito mais criatividade e impacto.

Pierce Brosnan é uma versão de Tony Blair, ex-primeiro ministro inglês que enfrenta protestos e julgamentos por ter apoiado a guerra no Iraque e seus crimes. Mas desde o começo vemos que sua mulher, interpretada pela excelente Olivia Williams (única a dar sensação de perturbação a um filme que tem a palavra "fantasma" no título), manipula mais fios do que ele - e que sua secretária, feita por Kim Catrall, manipula outras coisas. Ewan McGregor faz o escritor contratado para reescrever as memórias do político.

O clima de suspense logo se estabelece, mas o filme abre as portas e não avança muito. Um casal de funcionários asiáticos olha de modo esquisito, mas depois some da história; a primeira hipótese do escritor fantasma logo é comprovada, mesmo que ele cometa tolices como telefonar para o ex-amigo e agora rival de seu chefe; ele também seria uma reencarnação do autor antecessor, sem que isso seja aprofundado; o ritmo de ação entra, para depois não dar em nada, exceto uma cena forte seguida de um final previsível. Polansky já foi bem melhor em sugerir e desdobrar tensão psicológica.

De la musique. É fato que o jazz, como o futebol, já teve sua era de ouro, mas os saudosistas não sabem o que perdem quando desdenham o que é atual. Três CDs de piano recentes têm qualidade e ousadia suficientes para atrair mesmo os mais tradicionalistas. O primeiro é de um mestre, Keith Jarrett, em parceria com o baixista Charlie Haden, e se chama Jasmine. O perfume é o do silêncio, como sempre em Jarrett, e Haden é outro paisagista de pausas e intervalos. Eles pegam standards como Body and Soul e Don"t Ever Leave Me e tiram delas os excessos e automatismos.

Já Brad Mehldau, em Highway Rider, e Jason Moran, em Ten, tocam composições próprias. Mehldau, que pertence à linhagem de Jarrett e Bill Evans, investe nos climas, na tapeçaria impressionista, e a mistura com ritmos e citações de seu gosto eclético, que vai de Chico Buarque a Radiohead. Moran, com seu trio, é mais anguloso e pirotécnico, e suas músicas tratam de temas como apartheid e Basquiat. Em canções alheias, como Crepuscule with Nellie, de Thelonious Monk, faz pensar no que os craques do bebop estariam inventando hoje.

Uma lágrima. Li os obituários de Paulo Moura, morto na semana passada aos 77 anos, e me lembrei de algumas vezes em que o vi, em especial um show no Cultura Artística com Yamandu Costa e Armandinho, show tão especial que a plateia quase só tinha músicos e especialistas como Maria Rita, Arthur Nestrovski e outros. De formação erudita e depois jazzística, ele correu Brasil com um trabalho fundamental com os choros de Nazareth. Gravou com parceiros como a pianista Clara Sverner, o violonista Raphael Rabello, o compositor e pianista João Donato e praticamente todos os grandes cantores e cantoras brasileiros. Sabia improvisar sem desestruturar a melodia e não tinha preconceito de gênero; o que prezava era a qualidade. Eu gostava dele sobretudo no clarinete, e a marca que deixou entre os maiores instrumentistas do País vai soar para sempre.

Por que não me ufano. Por mais que a média de crescimento econômico de seu governo seja melhor, há algumas manchas que Lula jamais vai conseguir apagar da história. Talvez a maior de todas seja seu descaso para com as regras. Nesta semana lemos sobre seu discurso no anúncio do trem bala, em que encaixou mais uma promoção ilegal de Dilma; sobre a cartilha da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que destaca um discurso da ministra; e sobre a violação do sigilo tributário do tucano Eduardo Jorge pela campanha petista, violação contra a qual o presidente não se manifestou.

Nada de novo, já que Lula vem "perdoando" todas as contravenções desde 2003, como ao descrever o mensalão como praxe, ou seja, aceitável. Mas um homem público que brandiu a bandeira da ética a vida inteira, enquanto não chegou ao poder, deveria ter um mínimo de respeito pelas leis e pelos valores da democracia que governa.

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