Roteiro de Paul Theroux

O escritor americano Paul Theroux criou uma sólida reputação como bom observador - suas reminiscências costumam oferecer som, aroma e até a textura dos locais descritos. O dom se comprova em Até o Fim do Mundo, crônicas de viagem em que relembra desde o fim de tarde na casa de Jorge Luis Borges em Buenos Aires até uma agitada partida de futebol em El Salvador. Não são relatos recentes - o mais novo é de 1990 -, mas o frescor das cenas resistiu ao passar do tempo.

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

É o caso da narrativa sobre o Tibete. A cena é idílica, com a Nona de Beethoven encantando o escritor e sua acompanhante, enquanto o carro percorria colinas sinuosas. "Estávamos nos aproximando de uma curva. Eu estava um tanto ansioso, mas me sentia feliz, rodando pela estrada mais alta do mundo, a caminho de Lassa", escreveu. Em seguida, o inesperado: "Lembro-me de tudo isso claramente, porque dois segundos depois batemos."

Na juventude, o escritor decidiu morar na Inglaterra onde, acreditava, teria distanciamento para estudar os conterrâneos. Insatisfeito, passou a cruzar os continentes, fase em que atuou como professor em Cingapura e ativista político em Uganda. Tal experiência lhe permitiu desenvolver uma narrativa que tanto flerta com o texto banhado pelas experiências de viagens como pelas tramas de ficção.

Em Até o Fim do Mundo, o escritor não cai na armadilha do lugar-comum nem na tentação de apenas exaltar pontos turísticos. Na verdade, Theroux prefere congelar momentos que, se pouco ou nada acrescentam à descrição do espaço, enriquecem como experiência humana. Em Futebol em São Salvador, por exemplo, ele busca em um estádio o espírito do povo de El Salvador. Ele conta que só conseguiu entender de fato os britânicos ao assistir a um jogo de futebol, durante o qual não se mostram tão calados e bem-comportados.

Assim, depois de esconder anéis, relógio e dinheiro, seguiu para o estádio onde acompanharia um clássico regional, El Salvador x México. A partida corria tranquila quando a bola foi chutada para a arquibancada. De repente, bandos de torcedores trocavam socos pela sua posse. Os jogadores sentaram-se no gramado, alguns faziam alongamento, enquanto o alto-falante implorava pela devolução do esférico. A partida só recomeçou quando uma nova bola foi conduzida ao campo. O suspense, porém, não terminara: gol do México. O esporte transforma-se em um ajuste de contas de rivalidades seculares. Theroux não tenta esconder sua condição de estrangeiro, nem faz julgamentos apressados. Revela-se, na verdade, um homem em busca de resultados para problemas aparentemente insolúveis.

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