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'Rostos na Multidão' trata da dificuldade de conciliar papel de mãe e literatura

Mexicana Valeria Luiselli fala metalinguisticamente em seu livro mais comercial

Wilson Alves-Bezerra,

31 de agosto de 2012 | 19h30

Rostos na Multidão não é o único título do romance da jovem escritora mexicana Valeria Luiselli, nascida em 1983. Pode ser o mais comercial, mas não tão sugestivo quanto Los Ingrávidos, que estampa a edição original. Ingrávido refere-se àquele que não está submetido às leis da gravidade e, portanto, flutua. São personagens assim que habitam o romance. Já o verso de Ezra Pound que inspira o título em inglês e português - "The apparition of these faces in the crowd" - soa hoje a lugar-comum.

Há ainda no título espanhol a referência à gestação. A inquieta mãe que narra está sempre às voltas com o tema da concepção/ construção: na experiência da maternidade, nos impasses do marido arquiteto e na impossibilidade de uma escrita literária de fôlego no âmbito do lar recém-formado. A jovem é acometida por uma série de reminiscências - as amigas, os parceiros - e pelas astúcias linguísticas dos dois filhos: o menino que faz trocadilhos e a recém-nascida que apenas balbucia. Seu cotidiano é terno, mas tem algo de sufocador. A cena em que a narradora - destra - se divide entre a caneta e a filha que dorme agarrada à sua mão direita é exemplar: "Posso escrever de dia só quando a bebê dorme sestas a meu lado. (...) Escrevo um pouco com a mão esquerda. As maiúsculas são muito difíceis. Faço duas ou três vezes a tentativa de recuperar minha mão (...) Ela acorda e chora, me olha ressentidamente. Devolvo-lhe a minha mão, e novamente me ama."

É um romance que fala da maternidade, do casamento e da dificuldade de conciliá-los com o mundo das letras. Mas é também a narrativa das leituras da jovem, a quem restam a escrita de "um romance silencioso, para não acordar as crianças" e as constantes perguntas do marido, leitor impertinente que fuça seus papéis e a inquire sobre a veracidade dos trechos eróticos ali narrados.

Há mais, porém. Funcionária de uma pequena editora norte-americana, a protagonista procura autores hispânicos interessantes para publicar em inglês. É quando topa com o poeta mexicano Gilberto Owen (1904-1952), que vai pouco a pouco tornando-se uma obsessão para ela. Diante da negativa do editor, a jovem, acostumada a furtar coisas, articula uma impostura inventiva: criar um manuscrito falso.

E se nas sucessivas reminiscências e diálogos entrecortados há marcas de autores como o Juan Carlos Onetti de O Poço e o Juan Rulfo de Pedro Páramo, na relação com o poeta Owen surge inequívoca a voz do escritor catalão Enrique Vila-Matas. Com ele, a autora partilha o gosto pelas tramas imaginativas com personagens que se propõem experiências quase místicas com autores queridos (e mortos): Vila-Matas o fez, por exemplo, com Joyce, em seu romance Dublinesca (2010). Luiselli vai além e dá voz ao ingrávido Owen, que assume a narrativa.

Cria-se um espelhamento entre a jovem mãe da primeira parte do livro e o angustiado poeta da parte final. Ambos enfrentam uma relação literária com a vida e se movem como seres impalpáveis. Ao leitor cabe passar para o outro lado do espelho. Há uma diferença sutil entre ver a vida pelos olhos da garota inquieta do século 21 e acompanhar a narrativa do mirrado poeta mexicano de cem anos antes: o espectro de Owen não tem a mesma espessura.

Antes que se diga que essa é a falha do romance, cabe outra consideração. Desfruta melhor o livro quem considera que sua parte final é mais uma impostura da jovem cleptomaníaca obcecada pelo inalcançável poeta. Quando o leitor percebe que é a voz da garota oculta em meio à sintaxe de Owen, a narrativa ganha outra dimensão: a do romance secreto que se inscreve nos interstícios da voz do outro, seja ele o marido, o filho ou o poeta preferido. Assim, a ingravidez ganha outra dimensão, a de gestação às avessas. Dar vida e consistência aos próprios espectros, mesmo que num manuscrito forjado.

WILSON ALVES-BEZERRA É TRADUTOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS

ROSTOS NA MULTIDÃO

Autora: Valeria Luiselli

Tradução: Maria Alzira

Brum Lemos

Editora: Alfaguara

(168 págs., R$ 29,90)

 
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