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Rostos e corpos para Chéreau

Diretor francês seleciona no acervo do Louvre, em Paris, obras para compor Les Visages et Corps

Luiz Carlos Merten / PARIS, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Patrice Chéreau, o grande diretor de teatro e cinema, foi o convidado de outono do Museu do Louvre. Todo ano, o festival convida um artista de ponta para realizar uma exposição. Chéreau sucedeu a Pierre Boulez e Umberto Eco, que realizaram mostras temporárias no mais tradicional museu do mundo. A de Chéreau termina amanhã no Louvre. Vale a pena fazer o recorrido do museu para chegar ao espaço em que se localiza Les Visages et Corps, até mesmo uma visita virtual.

Rostos e Corpos. Na carta de intenções da mostra, Chéreau confessa: "Não sei viver nem fabricar, seja um objeto, um espetáculo ou filme, se não for na primeira pessoa. Sinto que me divido entre todos os personagens e, quando eles não são eu, se assemelham a pessoas que conheci e amei. É o que me dá energia para trabalhar. Alimenta o prazer e a necessidade de me dirigir aos outros."

Filho de um pintor e uma desenhista, Chéreau conta que o Louvre foi fundamental na sua formação, que sempre gostou de percorrer seus corredores e galerias impregnando-se da arte universal. Na porta da Salle Restout, Chéreau define o conceito de Les Visages et Corps. O Louvre lhe deu carta branca para buscar, em seu imenso acervo, quadros e esculturas que quisesse reunir. Como eles não bastavam, foi necessário recorrer aos acervos de outros museus. Um dos choques da exposição é a obra-prima de Gustave Courbet, L"Origine Du Monde. Aquela mulher de pernas abertas, com sua vagina exposta, é uma das obras-primas da arte. Chéreau a expõe numa parede com outras obras e, principalmente, com fotografias de Nan Goldin.

Se você não sabe quem é, é bom se atualizar. Nan é reputada como autora de fotos que ilustram o amor, a morte, a doença, justamente os maiores temas da condição humana. Ela clica rostos e corpos em movimento em festas, por exemplo. São trabalhos magníficos. Uma das imagens emblemáticas é de sua velha mãe numa explosão de riso. De volta ao conceito da mostra, Chéreau escreve que, no cinema e no teatro, para criar emoção ou estimular reflexão ele precisa se valer do corpo do ator. É a mais preciosa das ferramentas para o diretor, basta lembrar de A Rainha Margot.

Na adaptação do romance de Alexandre Dumas, Chéreau seguiu uma lição de Visconti, a do cinema antropomórfico, dirigindo sua câmera basicamente para o corpo dos atores, como representação do humano. Da mesma forma, ele quis se valer de rostos e corpos buscados na imensa galeria do Louvre, em pinturas de grandes mestres, para compor uma reflexão sobre o homem no mundo, não muito diferente de suas peças e livros. Há aqui um Ticiano, ali um Rembrandt, mais adiante um Bacon e um Picasso. São obras famosas ou estudos. Um rosto de Bacon, um dorso de Géricault, o enigma daquela vulva por Courbet.

Belo e desconhecido. Um dos mais belos é também um dos menos conhecidos, São Sebastião Tratado por Santa Irene, de Francesco del Cairo. Todo mundo conhece a imagem de São Sebastião crivado de flechas e o próprio cinema se apropriou dela na versão de Derek Jarman. O São Sebastião de Chéreau assemelha-se ao Cristo de Mantegna, mas a construção da imagem remete à Pietà. Como o Cristo acolhido pela mãe, Sebastião repousa nos braços de Santa Irene.

Esses rostos e corpos transmitem não só o belo, transmitem a graça, a revelação, a ascese. São explosões de luminosidade em meio às sombras. O visitante percorre a mostra como se assistisse às imagens paradas de um filme. O movimento, quem faz ali, é o olhar do observador. Para complementar, paralelo à Sala Restout está o Corredor des Poules, que abriga, digamos assim, o making of da exposição. Sebastien Allard e Vincent Hught fizeram a curadoria de Derrière les Images. São desenhos e estudos cenográficos do próprio Chéreau e, depois que ele parou de desenhar, nos anos 1970, feitos por seu cenógrafo de sempre, Thierry Thieû Niang.

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