"Rose Rose", de Londres para o Brasil

Há 20 anos o diretor Roberto Vignati encenou a peça Bent, do dramaturgo Martin Sherman. Um grande sucesso de público e crítica, que lhe valeu nada menos do que 12 prêmios. Não foram os primeiros de sua carreira e não seriam os últimos. Mas Bent foi a única peça de Sherman dirigida por Vignati, que completa agora 40 anos de atividade artística. "Passei a acompanhar sua produção, a ler todos os seus textos, mas nenhum, depois de Bent, atraiu-me especialmente."Isso até descobrir Rose Rose, texto escrito por Sherman em 1999. "Até onde sei, por enquanto, a peça só foi encenada em Londres." Como havia ocorrido com Bent, Vignati apaixonou-se pelo texto e comprou imediatamente os direitos de montagem, que estréia nesta terça-feira, para convidados - e a partir de quinta para o público - no Teatro Imprensa, com Ana Lúcia Torre interpretando Rose. "É obra da maturidade. Em Bent ele já mostrava ser um autor de síntese: frases curtas, humor ácido. Em Rose Rose essas características aparecem de forma ainda mais requintada."Vignati convidou Ana Lúcia para viver Rose, uma judia de 80 anos que faz um descontraído passeio por suas memórias, um balanço emocionado e muito bem-humorado de sua vida - com aquele típico humor judaico, de tiradas ao estilo Woody Allen. "Ela diz coisas como: Deus é como a polícia, nunca aparece na hora que a gente precisa", conta Ana Lúcia. Mas que ninguém se engane. Deus é uma presença constante, um companheiro com quem ela trava os mais diversos diálogos. "Em alguns momentos, ela percebe estar caindo em contradição e, de uma forma muita engraçada, tenta esquivar-se Dele", observa a atriz.A personagem é uma mulher corajosa e libertária. "Ela luta para estudar numa época em que isso era proibido às mulheres, sai de casa aos 16 anos, casa-se três vezes - uma delas com um cigano - e quebra tabus sexuais", diz Ana Lúcia. A peça propicia ainda um passeio pela História. Rose nasce na Ucrânia, sofre na Rússia de Stalin, passa pelos horrores da 2.ª Guerra - vivendo no gueto de Varsóvia -, emigra para o Estados Unidos, rebela-se contra a caça às bruxas no período da Guerra Fria, vive um período numa comunidade hippie, vibra com o jazz e ainda vê - com perplexidade - seu filho se tornar judeu ortodoxo e se mudar para Israel."De sua relação com o filho surge a grande surpresa da peça, que não pode ser revelada, sob pena de "desmanchar o prazer" da descoberta. Surpresa que levou o público às lágrimas nas apresentações em cidades do interior de São Paulo, como Ribeirão e São José do Rio Preto. "O espectador brasileiro, que aceita passivamente a ameaça de corte de energia depois de ter pago todos os seus impostos, admira e até inveja essa mulher capaz de, aos 80 anos, tomar atitude, marcar posição, lutar por aquilo que acredita", argumenta Vignati.Ele ressalta a qualidade da dramaturgia de Sherman, a chamada "carpintaria" do texto que subverte a estrutura tradicional do monólogo. "As pessoas têm resistência com monólogos porque já imaginam alguém no centro do palco, numa narrativa monocórdia. Essa peça é o oposto disso. Ágil, cheia de personagens que se movimentam pelo palco - invisíveis -, mas que acabam sendo claramente vistos pelo público", afirma Vignati. "E não tem nada disso de colocar um chapeuzinho e virar outra personagem", diz Ana Lúcia. A atriz mantém o mesmo figurino durante toda a peça, está sempre com 80 anos, mas a partir de suas memórias, traz para o palco cenas inteiras, saltando da narrativa para o diálogo. "Há um momento em que um desses personagens desloca-se no meio de uma multidão. O público poder ver isso, mesmo que ela seja a única atriz no palco." Para conseguir esse efeito, o diretor explora recursos teatrais - gestos simples e a cumplicidade do espectador. "Na maior parte do espetáculo a platéia está iluminada, porque a atriz fala diretamente com o público."Já a agilidade vem de recursos cinematográficos, como a fusão e os cortes. "Ela está falando com o público, entra uma música e imediatamente ela está numa festa, vivendo e não mais narrando." Segundo o diretor, a estrutura narrativa de Sherman surpreende a todo momento. "Há um momento em que ela se dirige a um personagem e, subitamente, dá as respostas já assumindo o papel da pessoa com quem dialoga. Na cena seguinte, quando o público imagina que isso vai se repetir, vem outra coisa totalmente diferente."Ana Lúcia não vê problema em viver uma mulher de 80 anos. "Penso em Henriqueta Brieba, Norma Geraldy, Dercy Gonçalves e tenho certeza de que não preciso representar uma velhinha alquebrada."Rose Rose. De Martin Sherman. Direção Roberto Vignati. Duração: 1h45. Quarta, às 21 horas; quinta, às 17 e 21 horas. R$ 25,00. Teatro Imprensa. Rua Jaceguai, 400, tel. 239-4203. Até novembro. Estréia quinta-feira.

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