Rosana Monnerat expõe obras inspiradas em Segall

Esconderijos da Memória, exposição que inaugura uma nova série de intervenções contemporâneas no Museu Lasar Segall, é fruto de uma relação de intimidade e admiração de Rosana Monnerat com a obra do artista lituano. Numa releitura bastante pessoal de uma de suas obras mestras, Navio de Emigrantes - assim como de outros estudos e gravuras sobre um dos temas preferidos do pintor, o deslocamento de enormes massas de gente em fuga da guerra e da perseguição aos judeus, ela mergulha no mundo criado por Segall e tira daí uma série de elementos históricos, afetivos e humanos com os quais constrói sua história."Esse é um de meus trabalhos mais narrativos", afirma Rosana, que sempre se apropria de referências históricas e diz manter uma forte relação com a literatura. Segundo ela, as 24 gravuras que expõe no museu são como uma única obra. Nas imagens extremamente sutis que ela tira da matriz de cobre com a ajuda da ponta seca (que se agregam às imperfeições e traços já existentes na matriz de cobre que faz questão de deixar do jeito que estavam quando as comprou) reconhecemos os núcleos humanos, as relações singelas que se escondem por trás da massa de gente que ocupa o convés dos navios lotados pelos emigrantes. Não por acaso, a única escultura da exposição - que, como as gravuras, é cercada por uma trama, uma rede, que ao mesmo mesmo tempo prende e protege - chama-se Esconderijos da Memória. "Ficava me perguntando o que passava pela cabeça daquelas pessoas", conta.As relações familiares e os agrupamentos humanos que caracterizam a obra de Segall acabaram por reduzir uma característica bastante marcante na obra de Rosana: a profunda solidão em que normalmente situa seus personagens. Vemos em seu trabalho o desespero, mas também um lirismo encantador, como aquele presente na gravura Crianças Tentando Hipnotizar as Ondas, que representa um grupo de crianças brincando na borda do navio. Uma das características que fascinaram Rosana e que ela retoma em seu trabalho são as figuras em que ela associa mães e filhos, como se fossem uma só coisa.Há também o horror da mulher que desistiu de falar e que se abandona ao vazio, mas predomina um certo sentimento de solidariedade, como define o diretor do Museu Lasar Segall, Marcelo Araújo, que se diz extremamente gratificado por iniciar esse ciclo de artistas contemporâneos que dialogam com Lasar Segall com Rosana Monnerat que, além de ter uma admiração profunda pelo artista, usou os ateliês da instituição como uma extensão de sua casa durante três anos, quando chegou a São Paulo, em 1990. A próxima exposição dessa série será dedicada à pintura de José de Quadros, autor de um trabalho sobre os matagais de Segall.Rosana Monnerat. De terça a sábado, das 14 às 19 horas; domingo, das 14 às 18 horas. Museu Lasar Segall. Rua Berta, 11, tel. (11) 5574-7322. Até 14/10. Abertura sábado, às 14 horas.

Agencia Estado,

30 de agosto de 2001 | 19h28

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