'Rosa Schwarzer volta à vida'

Leia conto do livro 'Suicídios Exemplares', de Enrique Vila-Matas

30 de maio de 2009 | 13h01

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Nos fundos do museu de Düsseldorf, em uma austera cadeira do incômodo canto que lhe foi designado há anos, na última e mais escondida das salas dedicadas a Klee, pode-se ver esta manhã a eficiente vigilante Rosa Schwarzer bocejando discretamente, ao mesmo tempo em que se sente um tanto inquieta, pois um momento antes, mesclando-se ao som da chuva que cai sobre o jardim do museu, começou a chegar, vindo do quadro O príncipe negro, o sedutor chamado do príncipe que, para convidá-la a entrar e se perder na tela, envia o altivo som do tambor de seu país, o país dos suicidas.

 

Eu sei que Rosa Schwarzer, em sua desesperada tentativa de afastar a influência do príncipe e a tentadora proposta de abandonar o museu e a vida, acaba de refugiar o olhar nas tênues cores rosadas de Monsieur Perlacerdo, que é outro dos quadros dessa sala que vigia com tanto zelo, onde quem ousasse irromper agora se depararia com uma eficiente vigilante que prontamente interromperia seu bocejo, e pondo-se de pé, pediria ao intruso que, por causa do alarme, fizesse o favor de não se aproximar muito nem de monsieur Rosa nem do senhor Negro.

 

O fato, Rosa Schwarzer está ligeiramente inquieta esta manhã.

 

Influi nisso tudo a segunda-feira que viveu ontem? Eu diria que sim. Ontem, Rosa Schwarzer fez cinquenta anos, e como o museu fecha às segundas, achou que teria toda a manhã para preparar o almoço de aniversário. Mas já desde o primeiro momento tudo se complicou enormemente. Para começar, acordou angustiada, movendo-se feito uma marionete, tateando no vazio incolor e insípido de sua triste vida. Depois, esse vazio recobrou um ligeiro tom de cinza, como o do dia.

 

Esta vida para quê?

 

Eu sei que Rosa Schwarzer disse isso ontem enquanto dormia, um pouco antes de acordar, no sono da manhã, e que falou a mesma coisa hoje, dormindo, mas que, diferente desta manhã, ontem levantou sem a consciência do que disse, ontem simplesmente começou a preparar o café da manhã para seu marido e os dois filhos, que lhe haviam assegurado que, mesmo se trabalhassem na segunda-feira, iam fazer um esforço para que todos se reunissem à hora do almoço, e provariam com o prazer de sempre aquele leitão assado que ninguém sabia fazer melhor que mamãe Rosa, como todos a chamavam.

 

Assim todos me chamam, pensa agora Rosa Schwarzer enquanto escuta o rumor da chuva no jardim, enquanto é atraída pelo som do tambor do país dos suicidas.

 

Sei que ontem, depois do despertar de marionete angustiada, o segundo contratempo foi a inesperada deserção de Bernd, o filho mais velho, que durante o café disse que seria impossível estar presente para o almoço, então o pai aproveitou para também se desculpar e dizer que andava muito ocupado, e que guardassem sua parte do leitão assado para a noite.

 

Em silêncio, Rosa Schwarzer mordeu os lábios e pensou que tudo aquilo não atrasava o café, que já estava quase pronto, mas o que de alguma forma já estava atrasando era a hora do almoço, pois havia outras coisas se cruzando perigosamente em seu caminho, pedindo com força sua atenção. Porque ao deixar que seu olhar vagasse distraidamente pela cozinha, tinha reparado, junto ao café, aos queijos, ao chá, aos pães de centeio, às geleias e aos embutidos, o coração solitário de uma garrafa transparente de água sanitária que, se pudesse estar viva, teria sem dúvida se animado na forma de uma triste marionete perdida no vazio insípido daquela cozinha não menos triste.

 

Pensou em como era fácil morrer, e que não devia deixar para outra hora aquela magnífica ocasião. Bastavam uns goles de água sanitária e apagaria de uma vez todo aquele cotidiano de imagens cinza, de maridos desalmados, de tédio mortal no museu. Mas quando já estava a ponto de pegar a garrafa, aconteceu de pensar no desgraçado de seu marido ou, melhor dizendo, em seu marido sem graça, e de repente descobriu que havia algo no ar da manhã, nesse estar sozinha na triste cozinha, que agitava seu sangue de um modo não desagradável. Na verdade seu marido, enganando-a descaradamente todos os dias com a vizinha (e o desgraçado achava que ela não sabia), era merecedor de compaixão, e precisava ser ajudado, o que não deixava de ser uma boa razão, simples, mas muito importante, para seguir vivendo, para seguir preparando o café da manhã, para seguir tentando que seu marido recuperasse a alegria e voltasse a ser aquele homem encantador que havia conhecido no parque Hofgarten, numa maravilhosa manhã de domingo, trinta anos antes, e que não merecia ser apagada por uma garrafa de água sanitária qualquer.

 

Antes de levar o café da manhã até a sala, e para celebrar que havia deixado escapar aquela ótima ocasião de acabar com a própria vida, Rosa Schwarzer tomou um café muito forte que a fez dar uma nova olhada na paisagem da cozinha, prescindindo desta vez da presença obsessiva da água sanitária, ou seja, viu os outros cafés, os queijos, o chá, os pães de centeio, as geleias e os embutidos, mas não viu, ou não quis ver, a maldita água sanitária.

 

O café a despertou de modo quase selvagem e, por um momento, caso se tratasse de uma breve antecipação do que hoje poderia viver no museu, viu as remotas paisagens do país de um obscuro príncipe estrangeiro. O café a despertou de tal modo que a fez entrar na sala com um passo excessivamente vivo e acelerado, e por pouco não derrubou a bandeja sobre a cabeça inocente do filho caçula, que tinha uma doença mortal e não sabia, o pobre Hans.

 

Meu pobre e querido Hans, pensou enquanto abria a janela e o ar frio da manhã entrava de uma vez em toda a sala, e Rosa Schwarzer seguiu pensando na infinita desgraça de seu filho, até que pensou de repente na possibilidade de se atirar no vazio, ou melhor, no duro pátio da vizinha, aproveitando aquela segunda ocasião, tão fácil como inigualável, que se apresentava para tirar sua vida e fazê-la alcançar a liberdade, ao desprender-se de tudo e de todos, e sair por fim deste trágico e grotesco mundo. Mas logo se deu conta de que seu filho precisava muito dela, ainda mais do que seu marido, e que aquela, sim, era uma verdadeira razão para continuar vivendo. E para dizer a si mesma que continuaria viva, perfeitamente viva, Rosa Schwarzer provou um pedaço de queijo.

 

Quando os três homens da casa saíram para o trabalho, começou a se vestir, e o fez tão lentamente que acabou demorando muito mais que o habitual em se arrumar para sair à rua. Distraiu-se contando as mechas brancas que haviam aparecido em seu cabelo ao longo da última noite, e pensou em comprar uma peruca, mas então se lembrou de um sujeito estranho que tinha conhecido na infância. Um homem que em seu trágico desespero arrancava, brutalmente, os fios da peruca. Não queria que acontecesse algo semelhante com ela. O que será que aconteceu com esse homem?, pensou. E mais: onde vão parar as perucas quando as pessoas morrem?

 

Ficou se fazendo perguntas desse tipo e atrasando deliberadamente a hora de comprar o leitão até que, finalmente, já bastante tarde, saiu à rua. O ar e as cores do meio-dia se descortinaram a sua frente, frescos, tonificantes e novos, enquanto procurava direcionar às suas tarefas domésticas essa paixão que, inconfessada, acende o coração de tantas donas de casa quando sabem da doçura secreta e do furioso fanatismo que se pode colocar sobre a prática cotidiana mais vulgar, o trabalho de casa mais humilhante, porque no fundo - pensou Rosa Schwarzer - não há nada comparável à íntima satisfação de ver o prato fumegante servido com admirável pontualidade à hora do almoço.

 

Era o que Rosa Schwarzer pensava ontem pela manhã, mas ao mesmo tempo, e entrando em violento choque com suas convicções mais íntimas, disse para si mesma que o leitão assado podia esperar, e mais, que não estaria pronto, nem por casualidade, à hora do almoço, declarou-se em operação tartaruga, e começou a caminhar mais devagar, como se estivesse em fogo brando, cozinhando lentamente. E lentamente o sangue subiu às bochechas quando decidiu que faria uma simples salada de batatas (no fim, para ela e para Hans era suficiente), e logo pensou que não, nada disso, não prepararia um só prato e que Hans era um enorme desgraçado para que ela ainda estivesse planejando saladas otimistas, e que definitivamente a vida era pior que uma estúpida batata, e que se mataria, sim, se mataria sem mais adiamento. Além disso, ali estava o maldito asfalto brilhando ao sol, convidando-a a lançar-se sob as rodas de algum carro e acabar assim, de uma vez por todas, com o cansativo assunto do leitão assado, do marido infiel, da salada de batatas, dos talheres e da toalha, do infinito tédio das manhãs no museu, da couve e das alfaces, do filho caçula à beira da morte, dos pratos fumegantes servidos com admirável pontualidade à hora do almoço.

 

Já estava procurando o carro que acabaria com sua vida quando percebeu que, na verdade, algo muito mais fundo havia se partido nela nas primeiras horas da manhã, daquela fria e estranha manhã, porque, pensando bem, não deixava de ser esquisito que, depois de tantos anos sem refletir sobre a vida e as coisas, nas últimas horas não tivesse parado de pensar nisso. E pensou que no fundo era muito estimulante ver como sua frágil vitalidade tinha se enchido de sombras daquela forma tão tétrica, mas ao mesmo tempo tão perigosamente atraente. Em outras palavras, sua vida, ao entrar no reino do obscuro e do desespero, tinha se transformado paradoxalmente em algo, por fim, um pouco animado. Similar a um desses filmes que começam com uma fotografia preto-e-branco na qual, com alguma insistência, é possível ir vendo mais e mais, até que a imagem vai recuperando a cor, e um discreto enredo se põe em marcha. Assim se animava - não muito, mas discretamente, o que já era alguma coisa - a sua vida. Por que, então, ficar cruelmente sem maquiagem sob as rodas de um carro se na verdade nada a interessava tanto como saber com que acontecimentos - discretos, mas ainda assim acontecimentos - se depararia nas horas seguintes?

 

Tudo isso lhe pareceu uma razão mais do que suficiente para deixar passar aquela nova ocasião de se matar. Para comemorar que havia decidido continuar viva, entrou no Comercial para tomar um chá, e o fez com a satisfação de quem enfim se atreve a tomar uma decisão por muito tempo adiada, pois fazia anos - desde que se casara, ou talvez desde muito antes - que não entrava sozinha num bar. Por isso, ao apoiar-se no balcão e pedir o chá, sentiu que estava vivendo um momento de intensa liberdade. Sentia-se muito contente, quase feliz, mas quando lhe serviram o chá, e quando, mais precisamente, estava vendo a vida cor-de-rosa - o carpete do lugar, que era dessa cor, contribuía em parte -, reparou em um homem, bêbado provavelmente, que cambaleava de forma estranha a poucos metros dela. Lembrou, sem saber muito bem por que, do homem da peruca que havia conhecido na infância. Apesar de ter parado de chover há horas, o homem continuava com o capuz de sua velha e escura capa de gabardine. A uma horas dessas e já tão bêbado, pensou Rosa Schwarzer. Pouco depois, com certo horror, viu que estava se aproximando dela. Então o reconheceu e se tranquilizou. Era um vizinho do bairro, que já havia visto muitas vezes, e de quem se comentava estar sempre perdido, chorando pelos cantos dos bares.

 

- Boa noite - disse o homem, com graciosa e surpreendente amabilidade. Tinha uns trinta anos, era muito bonito e parecia triste.

 

- Quer dizer bom dia - ela respondeu.

 

- Saiba a senhora que só existe a noite, a escuridão. Só há uma história que acontece à luz do dia. Já ouviu falar desse homem que sai de um bar do porto à primeira hora da manhã?

 

- Ouça, Hans, não incomode a senhora - interveio o garçom. E Rosa Schwarzer ficou um tanto surpresa ao ver que aquele homem tinha o mesmo nome do seu desenganado filho caçula.

 

- Não, não me incomoda nada - disse Rosa Schwarzer, comovida pelo nome daquele bêbado tão educado que, por outro lado, falava com certa graça, até mesmo com bastante lucidez. Quase não se notava que havia bebido.

 

- Esse homem - continuou ele - leva no bolso uma garrafa de uísque e desliza pelos paralelepípedos com a rapidez de um barco que deixa o porto. Logo se mete de cabeça em uma tempestade…

 

- Ah! Agora entendo o senhor - ela o interrompeu -, agora compreendo por que o senhor sai com o capuz na cabeça.

 

O homem fez como se não tivesse escutado e terminou sua peculiar história:

 

- Logo se mete de cabeça em uma tempestade, e aos trancos tenta freneticamente regressar. Mas não vai chegar a porto algum. Entra em outro bar.

 

- E por que bebe tanto? - ela perguntou imediatamente.

 

Depois de uma quase interminável reflexão, depois de dar muitas voltas no assunto, o homem respondeu:

 

- Porque a realidade é desagradável.

 

Rosa Schwarzer riu timidamente.

 

- Bobagem! - disse. - E por acaso a irrealidade também não é, meu amigo?

 

O homem então se aborreceu e perdeu a educação. Começou a explicar que era um boêmio incurável e que naquela noite não havia dormido e que o que mais gostava (e aqui fez uma inflexão de voz para reforçar seu suposto engenho) era divulgar seu estilo de vida pecaminoso e não convencional entre as almas condenadas da Internacional Cebolista das sofridas donas de casa, tão choronas. Rosa Schwarzer, que não estava para brincadeira e que, além disso, lembrava que o único chorão ali era ele, decidiu não se abater e o fulminou com o olhar.

 

- Quem você achou que eu era? - disse.

 

E repete agora. Quem você achou que eu era? Mas desta vez dirige a pergunta ao príncipe negro, que insiste em emitir, através do rumor da chuva, o som do tambor de seu longínquo país, o país dos suicidas.

 

- Quem você achou que eu era? - repetiu Rosa Schwarzer ao boêmio impertinente.

 

- Ele não está incomodando mesmo a senhora? - interveio de novo o garçom.

 

- Oh, não! - ela reagiu de imediato, pois não desejava de modo algum a interrupção daquela sequência em cores de sua recém animada vida.

 

- Minhas desculpas, peço desculpas - apressou-se em dizer o boêmio com grande educação, um pouco assustado com aquele olhar fulminante de uma Rosa Schwarzer que se sentia capaz de tudo, pois estava convencida de que ninguém havia tido - o pobre boêmio muito menos - uma manhã tão intensa e perigosa como a sua. Sempre à beira da morte e sempre deixando para trás, no último segundo, o abismo. Já eram três as oportunidades que havia desperdiçado aquela manhã, três claras e precisas ocasiões para se matar. Isso a fazia sentir-se tão segura, e era tal a confiança que naquele momento tinha em si mesma, que se atreveu a convidar o desconhecido do capuz a passear com ela pelo bairro.

 

- Aceita? Tenho que comprar quatro coisas para uma salada de batatas.

 

- Bem, por que não? - ele disse, sem qualquer objeção. E então ela, ao ver que sua companhia era valorizada sem reservas, ficou profundamente comovida, e passou a ter tal confiança no desconhecido que lhe confessou ter estado três vezes à beira do suicídio nas últimas horas. Para contar tudo, demorou bastante tempo, porque não queria que os detalhes que ela considerava mais importantes ficassem em segundo plano.

- Assim - Rosa Schwarzer conclui, depois de meia hora -, nesta manhã tudo me parece novo, nada do que me acontece havia se passado antes.

 

O homem tinha quase dormido.

 

- Ei! Acorde, por favor, ficamos de ir comprar umas… - não se atreveu a dizer batatas -, vamos, faça o favor de acordar, o senhor não é o boêmio que disse ser.

 

O homem se reanimou, foi até o lavabo e voltou renovado.

 

- Que barbaridade! - ele comentou pouco depois, quando saíram à rua e a confiança já era mútua, inclusive chamando um ao outro de você. - Mas que barbaridade. Olha, você tem que me fazer um favor, Rosa, estive pensando bem, minha mente dava voltas enquanto você falava, e eu quase dormia, e se não dormi completamente é porque tentava seguir o misterioso fio do seu pensamento. Olha, você tem que me fazer um favor, Rosa. A próxima vez que quiser se matar, não recorra à água sanitária nem ao pátio da vizinha nem às rodas de um carro. São mortes muito pouco estéticas.

 

- E por que acha que haverá uma próxima vez? - ela perguntou um tanto surpresa.

 

Em resposta, o homem deu a ela uma garrafinha de uísque e disse que era cianureto, que ela a guardasse. Ela preferiu achar que aquilo era mais uma piada do boêmio e guardou a garrafinha num bolso de seu casaco.

 

- Em caso de necessidade - ele disse -, basta arrancar a tampa da garrafa e tomar o veneno num gole só, simples assim.

 

- Você sabe muito bem que está me dando uísque e não veneno - ela disse carinhosamente, sorrindo.

 

- Juro que é cianureto. A garrafinha é só para despistar, entende? - falou enquanto tirava lentamente o capuz da capa de gabardine, num gesto que ela interpretou como sinal de que estava voltando a si depois da sua noite de bebedeira, que estava voltando à realidade, por mais desagradável que a realidade pudesse parecer.

 

Às duas da tarde ainda continuavam caminhando, não haviam parado em nenhuma lanchonete e muito menos - apesar das tentativas dele - em nenhum bar, andavam tropeçando no calçamento de um bairro que já não era o deles, e estavam se aproximando do parque Hofgarten, já longe das paisagens cotidianas e também dos bares e das lanchonetes. Ele estava pensativo e, sobretudo, cansado, perto de desmaiar ou cair dormindo em qualquer esquina, mas continuava mostrando certa atenção quando Rosa Schwarzer falava e contava, por exemplo, que em Hofgarten tinha conhecido, trinta anos antes, seu pobre e infeliz marido. E acabaram sentando-se em um banco de pedra na entrada do parque.

 

- Agora - disse ele - em lugar de vigiar uma sala de museu, vigie Hofgarten inteiro. Não é má a mudança, nada má. Hofgarten inteiro…

 

Rosa Schwarzer sorriu, não respondeu e ficou olhando a passagem das nuvens no céu cinza e gelado, que cobria o parque. Meu pobre e querido Hans, pensava de vez em quando, e não sabia se estava invocando o nome de seu filho, a quem acabava de avisar por telefone que ainda estava no cabeleireiro e que demoraria para o almoço, pedindo que ele se virasse com um frango frio que estava na geladeira, ou se pensava no outro Hans, aquele que a acompanhava meio dormindo, o pobre e belo Hans, tão jovem e cordial, o homem do capuz e do cianureto, o homem que a havia feito se afastar do bairro, de sua família, da dor pela enfermidade do filho, do tédio das manhãs no museu e, definitivamente, do insuportável crisalho que se refletia em todos os passos de sua amarga vida.

 

- Então - ela disse -, ainda não me contou em que trabalha, se é que trabalha; o que, claro, eu duvido.

 

- Eu não posso trabalhar - respondeu com afetação, como se recitasse um papel muito estudado. - Eu só posso beber e chorar.

 

- Nunca trabalhou?

 

- Bom, algumas vezes, mas sempre acabaram me destruindo, quer dizer, me despedindo. Agora estou na mais absoluta miséria. Uma menina me ajudava, mas ela também ficou sem trabalho. Ultimamente meu pai me ajudava, mas entraram em greve na fábrica dele, e enfim… Agora ninguém me ajuda mais.

 

- Meu pai passou a metade da vida em greve. Dizia que era do que mais gostava.

 

Ficaram em respeitoso silêncio, ela pensando em seu pai, ele pensando no dele e, ao mesmo tempo, dava uma cochilada atrás da outra. A paz do lugar era imensa, ainda que fosse um parque muito triste por parecer profundamente solitário. O céu cinza e gelado que se estendia sobre ele o transformava na mais fria das paisagens. Era aquele, sem dúvida alguma, um parque solitário e gelado.

 

- Enfim, somos filhos de grevistas - disse ele com certa melancolia. E pouco depois, dando uma nova cochilada, caiu profundamente adormecido no ombro de Rosa Schwarzer.

Ela não se atreveu a despertá-lo, aquilo seria um crime. Depois, especulou o que aconteceria se casualmente passasse por ali algum familiar ou amigo. Que pensariam ao vê-la junto a um desconhecido que apoiava docemente a cabeça em seu ombro? Pouco importava o que poderiam pensar, entre outras coisas porque ninguém circulava por ali, aquele parque não podia ser mais solitário e silencioso, o mesmo lugar onde trinta anos atrás ela também havia arrancado da vida uns breves mas intensos momentos de grande felicidade. Precisamente porque já os tinha vivido, sabia que esses instantes tinham uma duração muito limitada, de modo que tirou de seu ombro, com grande suavidade, a cabeça do amável desconhecido e, deixando-o ali perdido e adormecido no velho parque solitário e frio, empreendeu a lenta e dolorosa viagem de volta ao bairro e à sua casa.

 

Durante o caminho, destroçou-lhe a alma a certeza quase absoluta de que nunca poderia expressar, nem com alusões, ainda menos com palavras, e sequer em pensamento, os momentos de felicidade fugaz que tinha consciência de haver alcançado. Essa certeza a acompanhou, como uma nova dor secreta, ao longo do caminho de volta. E quando, duas horas depois, voltou a encontrar-se nas ruas de seu bairro, um novo temor se juntou a tudo o que a preocupava, porque lhe ocorreu que seu filho Hans, que não trabalhava à tarde, poderia ter renunciado à volta habitual com os amigos e estar, dadas as circunstâncias especiais do dia, esperando-a em casa, aguardando seu regresso do cabeleireiro. Isso poderia ser terrível, porque ele veria que não havia cabeleireiro nenhum e sim um grande mistério ou, o que era pior, e além disso rimava com mistério: um grande adultério. Temendo ser descoberta, entrou no cabeleireiro do bairro e, como não tinha tempo para fazer o permanente, comprou uma horrenda peruca castanha. E com a peruca na cabeça se apresentou em sua casa, onde por sorte não havia ninguém, somente os ossos de um triste frango de geladeira, os restos da comida de seu pobre e querido Hans.

 

Logo a alegria de estar sozinha passou e deu lugar na indecisa Rosa Schwarzer ao sentimento contrário, um profundo abatimento por aquela terrível solidão que a casa oferecia. Aproximou-se da janela. O céu estava esbranquiçado, invadido por um verniz opaco, assim como em sua memória uma brancura opaca ia apagando a lembrança das sensações vividas junto ao boêmio abandonado no parque. Em seu trágico desespero, começou a arrancar, brutalmente, os fios de sua peruca. Pegou então uma faca de cozinha e pensou em fazer um haraquiri, arrebentar o ventre sem dó, oferecer suas entranhas a toda a inconsciente raça de sofridas donas de casa que o jovem boêmio escandalizava, para logo antever um sonho caprichoso no parque do esquecimento. Pôs a peruca em cima da geladeira e a cortou em duas com a faca, e foi tal a tensão e o esforço acumulados no gesto, que cortou a seco o ar carregado daquela cozinha. Esgotada, caiu no chão. Não, também não seria dessa vez que tiraria sua vida. Seu pobre filho, seu querido Hans, merecia jantar comida quente aquela noite. Levantou-se, jogou o que restava da peruca no lixo, riu feito uma louca, e provou o pão de centeio.

 

Porém, ao cair da tarde, seu pobre e querido Hans voltou para casa e nem sequer se interessou pelo leitão assado, nem perguntou por que ela tinha demorado tanto no cabeleireiro, tampouco se queixou de ter tido de comer o frango frio da geladeira, nada, nem sequer a olhou e, portanto, não teve oportunidade de ver o escandaloso cabelo de piaçava branca que sua mãe exibia. Apenas a cumprimentou sem entusiasmo e pediu que ela pregasse dois botões da camisa. Mas não a olhou. Rosa Schwarzer compreendeu que seu filho não se interessava nada por ela.

 

A aparição de Bernd, o filho mais velho, foi ainda mais desalentadora, porque nem se lembrava do leitão assado - nisso era igual a Hans -, mas por não se lembrar, não se lembrava sequer do aniversário da mãe, não se lembrava de nada. Limitou-se a encher a sala de fumaça, ligar a televisão e afundar no sofá. Rosa Schwarzer pensou em desligar de repente a televisão e falar a seus filhos de um gesto do boêmio que para ela havia parecido abrir imensas e desconhecidas possibilidades de amor. Mas sabia que jamais conseguiria expressar a plenitude que havia alcançado há apenas uns instantes, e também sabia que, mesmo na hipótese de fazê-lo, se pudesse expressar o que realmente sentia, seus filhos nem a escutariam, ou melhor, não acreditariam.

- O que vai ter para o jantar? - perguntou do sofá um exigente Bernd.

 

- A morte - ela disse. - Apenas a morte.

 

Disse isso tão baixo, da solidão de sua cozinha, que eles não puderam ouvir, assim como também não podiam escutar que naquele momento era degolada uma galinha. E se não era possível ouvir, era porque essa galinha era sua própria mãe, que se imaginava dessa forma, degolada viva, e fazia isso para pensar em algo que a distraísse e a afastasse de uma perigosa tentação que acabava de se apresentar na forma de uma nova oportunidade de tirar a própria vida. Abrir o gás e meter a cabeça no forno. Uma morte horrível, dizia para si mesma enquanto pensava que o pior de tudo era que, se finalmente se decidisse a imolar sua cabeça com o cabelo de piaçava junto, seus filhos provavelmente demorariam a se dar conta. Continuariam ali na sala discutindo como faziam diariamente, por sua ridícula parcela de poder no sofá. Imbecis. Desgraçados. Só quando tudo fosse consumado encontrariam uma cabeça de mãe bem assada no lugar do leitão. Uma morte horrível, pensava Rosa Schwarzer enquanto tentava, sem conseguir, afastar aquela imensa tentação.

 

Foi salva pela violenta chegada do marido. Sua inconfundível maneira de entrar em casa - a batida forte da porta e a tosse de fumante inveterado - dissolveu a feroz tentação do forno, porque imediatamente tinha mais interesse em pegar um pote de geleia e enfiá-la na cara do marido infiel. Uma vingança pela vizinha e, sobretudo, por tantos anos de indiferença e constante humilhação. Valia a pena deixar de lado a ideia do forno e gozar fugazmente da expressão de horror e surpresa de seu marido quando, pela primeira vez em trinta anos, a visse rebelar-se contra a sufocante violência de sua enorme indiferença. Mas antes de lançar sobre ele o pote, disse a si mesma que apagaria as luzes da casa e apavoraria os três. Não pela escuridão, mas porque com sua voz rouca de gaivota gritaria o próprio nome na escuridão. E assim o fez, mesmo que ao final não tivesse apagado as luzes mas se limitado ao grito:

 

- Rosaaaaaaa Schwaaaaaarzer.

 

Abaixaram incrédulos o volume da televisão, e então seu nome voltou a ser ouvido, mas dessa vez pronunciado em forma de eco veloz e muito sincopado, quase sufocado, como se estivesse em pleno ataque de soluço. Quando tudo passou, ela foi ouvida respirando profundamente, com grande alívio e felicidade.

 

- Ficou louca, mamãe Rosa? - interveio o marido segurando-a violentamente pelo braço. - O que está acontecendo com você?

 

Uma excelente oportunidade para morrer, pensou ela. Esta ocasião, sim, não vou deixar passar, vou tirá-lo do sério, o que é fácil, e estou certa de que dirá que vai me matar, e então forçarei as coisas para que me mate de verdade.

 

- Bela maneira de preparar o jantar - disse o marido. - Posso saber o que você tem?

 

Respondeu atirando o pote de geleia na cara dele, mas não acertou no alvo, e o pote se espatifou no relógio da cozinha, que parou de funcionar, o que deixou Rosa Schwarzer muito satisfeita, pois pensou que, pelo menos na cozinha, o tempo tinha parado; assim, com um pouco de sorte pararia para sempre se, como esperava, o marido se decidisse a matá-la. E o marido parecia ter essa intenção, pois tinha a mão levantada e a ameaçava dizendo justamente que ia matá-la. Tinha que fazer com que dessa vez a frase não ficasse, como de costume, por isso mesmo. Ela não podia deixar passar aquela excelente ocasião, aquela inigualável oportunidade - quem diria, a sexta em um único dia - de alcançar a morte.

 

Da porta da cozinha, os dois filhos a olhavam entre desolados e atônitos, como se lhe reprovassem algo. Era como se não quisessem perdoá-la por sua vida de escrava ter se animado ligeiramente nas últimas horas, como se não pudessem admitir de modo algum que, ainda que timidamente, ela tivesse voltado a respirar, tivesse voltado a viver.

 

- A culpa de tudo isso é do museu. Como se eu não soubesse… - Bernd comentou com seu pai.

 

Voou um novo pote de geleia, que também não acertou o alvo. Pouco depois, uma Rosa Schwarzer muito abatida, cansada de tanta incompreensão, se rendia. Sentou-se numa cadeira e ficou soluçando debilmente durante alguns instantes. De vez em quando gritavam:

 

- Cale-se, mamãe.

 

- Cala a boca, mamãe Rosa.

 

Ficou ali na cadeira, como se estivesse sentada no museu, até que terminou a programação da televisão. Chegando a hora de dormir, deitou-se sem vontade, tomada por uma insônia galopante, e passou a noite em claro, imaginando todo tipo de histórias que aconteciam num parque solitário e gelado, que transformava em notívagos todos seus visitantes. Já com as luzes da aurora, sem ter dormido a noite toda, ouviram sua voz:

 

- Esta vida para quê?

 

Disse isso dormindo, no sono da manhã, pouco antes de afinal se levantar e preparar o café da manhã, em que provou apenas uma fatia de presunto, enquanto pedia desculpas ao marido e aos filhos pela noite anterior, e lhes explicava ter se sentido afetada pelo aniversário e que isso era tudo, que a desculpassem.

 

Logo, como em tantos dias por tantos anos, foi de bicicleta ao museu, e está agora em sua tediosa cadeira de sempre, morta de sono depois da noite inquieta, bocejando ostensivamente enquanto tenta não se deixar seduzir pelo chamado do príncipe negro que, para convidá-la a entrar e perder-se na tela, faz soar o altivo som do tambor de seu país, o país dos suicidas.

 

Eu sei que Rosa Schwarzer, em sua desesperada tentativa de afastar a influência do príncipe e a sua tentadora proposta, acaba de refugiar o olhar nas tênues cores rosadas de Monsieur Perlacerdo, outro quadro dessa sala que vigia com tanto zelo, onde quem ousasse irromper agora se depararia com uma eficiente vigilante que prontamente interromperia seu bocejo, e pondo-se de pé, pediria ao intruso que, por causa do alarme, fizesse o favor de não se aproximar muito nem de monsieur Rosa nem do senhor Negro.

 

O fato, Rosa Schwarzer está ligeiramente inquieta esta manhã. E não é para menos, pois o tambor a chama com insistência cada vez maior, convidando-a a deixar o museu e a vida, e é tanta a sedução exercida pelo príncipe negro que, a qualquer momento, ela poderia sucumbir à nova oportunidade de tirar a própria vida. Na sétima vez, vou conseguir, pensa Rosa Schwarzer, e pouco depois lembra que ainda conserva o cianureto num bolso do casaco, e decide testar a sorte. Se for só uísque, talvez ajude a despertar, porque está caindo de sono, ainda que não esteja segura de que o uísque desperte, nunca provou uma gota de álcool e não sabe como este pode agir sobre ela, mas vai se arriscar. Se não for uísque, mas cianureto, vai viajar para o outro lado da existência, para aquele outro mundo, longínquo e sedutor, no qual vive o príncipe dos suicidas, que é apaixonado por ela.

 

Com um único e fulminante gole ingere o veneno, e quase de imediato o tambor a envolve com a mais calorosa sensualidade, ainda que também com alguma brutalidade, porque tem a sensação de que caiu morta. Tal foi o impacto, a força da rápida descida do líquido no estômago. Mortalmente tonta, dá uma forte cabeçada para a frente e, quando está a ponto de cair, sente que entrou no quadro e que avança por um estranho corredor de uma cor cinza-chumbo, que a conduz a uma esplanada de forte colorido na qual se estende um altar precedido por vários degraus, cobertos por um tapete de um verde muito intenso, nunca visto por ela antes. Já perto do altar, e à sombra de uma gigantesca palmeira, descobre uma estátua que representa um homem ferido mortalmente por uma adaga cravada no coração. Seu coração de suicida apaixonado. É o príncipe negro, que logo que recobra a vida começa a celebrar a chegada de seu amor e, valendo-se de uma dança tão delirante quanto prolongada, convoca todos os suicidas do reino à grande esplanada em cujo altar vão acontecer os festejos de acolhida à recém-chegada. De todas as inumeráveis cabanas cercadas por um oceano de águas muito cristalinas, surgem súditos com trajes de gala que, segundo esclarece o príncipe, imitam o inimitável: a névoa azul ardente da África.

 

A felicidade mata, e esses suicidas imitam não o inimitável, mas o inexistente, pensa Rosa Schwarzer, enquanto lembra que também a irrealidade é desagradável. Pois, apesar da exultante beleza do príncipe, da névoa azul ardente e do deslumbrante país no qual se encontra, começa a sentir-se incômoda nessa cultura incompreensível, nesse longínquo e misterioso lugar em que se celebra a morte. Como se tivesse lido seu pensamento, o príncipe, depois de lamentar por ela não ter sabido apreciar o brilho das estrelas que em sua honra lançam fogos de artifício no velho e gelado céu de seu país, lhe adverte que só poderá voltar atrás em sua viagem se inalar a névoa azul ardente do país dos suicidas. Uma névoa altamente tóxica. Em seguida, Rosa Schwarzer compreende que se trata de suicidar-se novamente e, neste caso, de praticar o gesto ao contrário, um suicídio que a fará cair, não do lado da beleza, mas do lado oposto, do lado da vida. E Rosa Schwarzer não pensa duas vezes, se aproxima de uma das colunas de névoa e aspira profundamente, com toda a força, e em poucos instantes se encontra de novo em sua cadeira do museu, junto à qual descansa, quebrada em mil pedaços, a garrafinha embriagante.

 

Ninguém presenciou a fulgurante viagem. E Rosa Schwarzer, vigilante eficiente, abre bem os olhos e, ainda um pouco tonta, recompõe sua figura enquanto comprova que tudo continua igual. Ou melhor, quase igual, porque já não se ouve o clamor apaixonado e constante do tambor dos suicidas. Imóveis estão agora as cores, o negro do príncipe e o rosa do monsieur. No fundo, tudo está em perfeita e triste ordem. Com um sentimento amargo, mas no fundo também muito aliviada, Rosa Schwarzer sente que voltou a sumir no crisalho de sua vida, e se encontra bem, como se houvesse compreendido que, depois de tudo, não sabemos - eu o direi com as palavras do poeta - se na verdade as coisas não são melhores assim: escassas de propósito. Talvez sejam melhores assim: reais, vulgares, medíocres, profundamente estúpidas. Além do mais, pensa Rosa Schwarzer, aquela não era minha vida.

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