Rosa Palazyan investiga o drama da violência

A exposição que Rosana Palazyan inaugura nesta terça-feira na Galeria Thomas Cohn tira a arte de seu pedestal e mostra como é cada dia mais tênue a fronteira entre arte e vida. Há anos lidando com questões ligadas à violência, a artista resolveu ir mais longe e passou seis meses dentro de uma instituição para jovens delinqüentes, entrevistando individualmente cada um dos 70 internos.O rico material coletado deve render ainda um documentário (são mais de 40 fitas gravadas) e já transformou-se no projeto Roupa de Grife, que inverteu o fetiche desses meninos por roupas de marca (a maioria diz que rouba para tê-las), transformando seus desenhos em sofisticadas camisetas.Psicologia, jornalismo, sociologia são algumas das disciplinas que estão por trás dessa investigação ao mesmo tempo racional e afetiva, que, como bem define Heloisa Buarque de Holanda, promove a "queda do divisor entre ética e estética".O afeto de Rosana não tem nada de melodramático. É algo bem mais profundo, movido pela necessidade de usar todos os meios à sua disposição para refletir sobre esse confuso e terrível mundo que nos cerca. O discurso e a narrativa são elementos importantes. Há sempre um limite no uso das imagens, mas a eliminação de elementos dramáticos como as cores e o sangue não diminui a força dessas narrativas pessoais. Muito pelo contrário.Essas histórias estão coladas aos garotos mascarados que as viveram. Mas pertencem a todos nós. É isso que a artista quer mostrar ao levar para dentro de uma galeria comercial "pessoas de quem a sociedade não gosta". Não se trata mais dos meninos de rua que cometem pequenos delitos, com os quais a artista trabalhou na série O Que Eu Quero Ser Quando Crescer. Nem os trabalhos a partir de notícias dos jornais já filtradas. Desta vez ela quis mergulhar mais fundo e ver o lado humano do drama da violência a partir de um diferente ângulo.Pesadelo - A exposição é composta por três grupos de trabalhos. Na entrada estão os desenhos dos garotos usando as máscaras que desenharam para preservar suas identidades durante os depoimentos (todos são menores). Intercalados com os retratos estão espelhos, que devolvem a imagem do visitante e reforçam a idéia de coletividade, de que eles são a outra moeda da mesma sociedade.Num segundo momento estão as impressionantes reconstruções das histórias que jamais foram esquecidas. As cenas são recriadas com bonecos em miniatura, que repousam sobre travesseiros (sobre os quais também estão bordados a frase que conta o drama), como que saídas dos sonhos. Ou melhor, pesadelos. A única história alegre - segundo o protagonista - é a de um menino salvo por um amigo depois de ter sido baleado durante um assalto. A grande maioria desses casos são de cunho familiar, íntimo.Finalmente numa sala com luz negra, estão dezenas de balões nos quais a artista escreveu as frases mais citadas pelos seus interlocutores. "Por mais mentirosa que seja, a frase que eu mais ouvi foi: Quero sair dessa vida." A instalação, chamada Estrela Cadente, remete à primeira pergunta feita por Rosana nas entrevistas: Você já viu uma estrela cadente?Mitologia contemporânea - No segundo andar da galeria está exposto o trabalho do uruguaio Diego Píriz, que promove uma interessante fusão entre a linguagem direta e o caráter simbólico e icônico dos quadrinhos de super-heróis com uma acurada técnica pictórica. "Meus quadros são como imagens de alguém que cresceu com a TV, que foi mamando tudo isso de forma inconsciente e nunca pôde digerir tudo isso", explica ele.Como se estivesse recriando uma espécie de mitologia contemporânea, o pintor recria de maneira bastante particular cenas que povoam seu imaginário (tiradas de revistas de Timtim, Batman, Simpsons e aliadas à obras antológicos de Picasso (o mais popular dos pintores). E associa de maneira bem-humorada essas imagens a referências autobiográficas, como na tela Elástico. Elástico no caso é ele próprio travestido de super-herói, num quadro em que estão retratados a namorada e a ex-mulher.Rosana Palazyan e Diego Píriz - De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Thomas Cohn. Avenida Europa, 641, tel. 3083-3355. Até 11/11. Abertura, amanhã (24), às 20 horas.

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