Roque Ferreira por Roberta Sá

Em Quando o Canto é Reza, cantora potiguar presta sua homenagem ao compositor baiano

Roberta Pennafort/RIO, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2010 | 00h00

Boa companhia. Trio Madeira Brasil sofisticou as harmonias do samba de roda

 

 

 

 

Quando, em 2005, a iniciante Roberta Sá telefonou para o consagrado Roque Ferreira pedindo músicas novas para o CD que estava gravando, que viria a ser o ótimo Que Belo Estranho Dia Pra Se Ter Alegria, ouviu a resposta: "Manda seu outro CD pra eu ouvir!". "Na hora ele disse que era para poder conhecer meu estilo, mas depois me confessou que era pra ver se prestava mesmo", brinca Roberta, que à época, tinha acabado de lançar o elogiado CD de estreia, Braseiro. 

Passados cinco anos, a hoje aclamada cantora potiguar-carioca lança um CD-tributo ao compositor baiano, Quando o Canto é Reza (MPB Discos/Universal). Nele, imperam as temáticas tão presentes nos trabalhos de Maria Bethânia, a intérprete dileta de Roque, e que até então não haviam aparecido com tanta força no repertório "mais urbano" de Roberta: as personagens da cultura negra, sua indumentária e culinária, a fé religiosa, o mar, e também a dança e o amor. 

 

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Pela primeira vez, ela não está sozinha - as melodias do artista do Recôncavo ficaram nas mãos seguras do Trio Madeira Brasil, formado pelos virtuoses Marcello Gonçalves (violão de sete cordas), Zé Paulo Becker (violão e viola caipira) e Ronaldo do Bandolim. "Queríamos muito fazer um disco juntos. O trio está na minha história desde o comecinho: com eles fiz meu primeiro show fora do Brasil", conta Roberta, orgulhosa da boa companhia.

O tal show, em Portugal, foi no mesmo ano de 2005. Era uma época em que esses e outros jovens expoentes da música que se faz no Rio deste século viviam às voltas com o único CD de Roque, Tem Samba no Mar (Biscoito Fino), uma paixão coletiva. Contato feito e projeto aprovado, Roque mandou por Sedex dois pacotes com CDs demo, somando onze canções, para que Roberta saboreasse. 

Ela acabou ficando com oito inéditas, e pinçando outras cinco já conhecidas, agora com novas roupagens - entre elas, Água da Minha Sede (parceria com Dudu Nobre), sucesso de Zeca Pagodinho de dez anos atrás, e Mandingo, que Pedro Luís (produtor e marido de Roberta) e a Parede gravaram. A música de Roque, que havia descido até o Sudeste 30 anos antes, com gravações de Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione e outros, seduzira a todos. 

"Dá pra fazer vários discos só de Roque", concluiu a cantora, que, já no estúdio, se viu naturalmente mudando um pouco o jeito suave de cantar que é sua marca. "São músicas de mulher, mais vigorosas, não são de menininha. Não dá pra fazer uma vozinha desse tamanho. O disco ficou com uma suavidade, mas com força, se é que isso é possível." 

Laços. Ano passado, Roberta, Marcello e o documentarista Felipe Lacerda apanharam Roque em casa, em Salvador, e o levaram à sua cidadezinha, Nazaré das Farinhas, distante dali duas horas, e também a cidades vizinhas que serviram de berço ao seu samba-de-roda. As imagens gravadas deverão entrar num DVD. O contato se estreitou e Zé Paulo chegou a criar com Roque a bonita Zambiapungo. "Ele compõe compulsivamente. Fala pra gente: "Olha, se vocês tiverem melodias, podem me mandar que eu faço a letra, tá?" É do dia pra noite", conta Zé Paulo. "Mas Roque costuma dizer que não faz as letras nas coxas, é tudo estudado, ele lê muito", emenda Marcello.

Os dois violonistas fizeram os arranjos das faixas, em que aparecem também diversos instrumentos de percussão de Paulino Dias e Zero, de atabaques a pratos-faca. A intenção foi sofisticar as harmonias dos sambas-de-roda, que no CD estão, por vezes, travestidas de maxixe, choro, ciranda. Cada instrumentista tem seu momento. "É como um time de futebol: cada hora é um que está solando", diz Zé Paulo. 

O CD foi gravado no Rio, em um mês, em meio aos shows do DVD Pra Se Ter Alegria, que Roberta fez até junho. Volta e meia ela e os músicos se viam chorando, encantados com a beleza e a delicadeza da obra de Roque - compositor "que faz música perfeita", nas palavras de Bethânia.

As faixas já haviam sido testadas pelo quarteto em janeiro, em série de shows no Centro Cultural Carioca, no Rio. Canções como Tô Fora (no CD, com Moyseis Marques), Cocada, Orixá De Frente e Chita Fina logo caíram no gosto dos fãs de Roberta, apesar das dificuldades com as palavras em línguas africanas - tantas que Roque teve de mandar um glossário para que ela as entendesse e internalizasse. 

O lançamento será no Teatro Castro Alves, em Salvador, dia 27 de agosto.

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