Ronaldo Fraga, o estilista aprendiz

Evocando Mario de Andrade, nova coleção da grife 'viaja' pelo Nordeste

22 Maio 2010 | 17h00

Ronaldo Fraga em seu ateliê. Foto: Washington Alves/AE

 

Flavia Guerra, enviada especial

 

BELO HORIZONTE - Quando foi convidado a conhecer a comunidade de Salinas, no norte de Minas Gerais, o estilista Ronaldo Fraga torceu o nariz. Além de seu estúdio e fábrica na capital mineira (prestes a se mudar para sede maior), toda vez que viaja a trabalho com a mulher e parceira Ivana, deixa também os filhos Graciliano e Ludovico, de 6 e 8 anos, "que já aprenderam a cobrar a data de minha volta". Muito por isso, gostou de ouvir que levaria apenas meia hora de carro de Montes Claros até a cidade que é sinônimo da cachaça.

 

 

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Quatro horas depois e nada. "A produtora do projeto, que me fez o convite para desenvolver um trabalho com a comunidade local, contou depois que, se me tivesse dito a verdade, eu não iria. Mas fui e me apaixonei. Comecei a desenvolver oficinas de costura e o trabalho deu tão certo que acabei aceitando outros. E cheguei até Passira, agreste pernambucano, conheci as rendeiras, bordadeiras da região e as suas tradições que estão morrendo", lembra o estilista, enquanto mostra flores, anjos e asas-brancas que foram bordados pelas mulheres daquelas cidades durante oficinas ministradas por ele.

 

 

 

 

 

Quase que por acaso, essas figuras e bordados estamparão as peças da coleção Ronaldo Fraga Primavera/Verão 2011, que o estilista mostra no dia 14 de junho, encerrando a São Paulo Fashion Week. Mas não por acaso seus desfiles costumam arrancar lágrimas da plateia. Cheios de cores, texturas, um verdadeiro espetáculo à parte da coleção, remetem a referências muito além das roupas que o estilista cria. "A coleção sempre fica pronta na última hora, mas não me desespero. Com a cenografia e a trilha definidas, permaneço tranquilo", disse Fraga, que hoje segue para Passira levando na mala os protótipos. Já cortadas, as peças ganham esta semana os bordados que vão definir a coleção Turista Aprendiz.

 

Crédito. No próximo fim da semana, ele volta a Belo Horizonte com as mesmas peças, agora coloridas e que ganharam a textura dos bordados em ‘ponto colmeia’, ‘ponto cheio’, ‘ponto abacaxi’... Mais que virar item fashion, cada obra criada pelo estilista e suas pupilas ganha desta vez uma etiqueta com a indicação da bordadeira responsável. "Assim, quem comprar e quiser outro trabalho dessa artesã, poderá entrar em contato com ela."

 

Ao quebrar a cadeia produtiva clássica, Fraga também ajuda a romper um ciclo vicioso que há tempos vigorava na região: "Quando cheguei a Passira, cidade que tem essa tradição incrível do bordado, descobri que para muitas garotas era mais rentável se prostituir do que continuar a tradição das avós."

 

Mineiro que já pôs o trabalho de Carlos Drummond de Andrade na passarela (e para ajudá-lo convidou costureiras de Itabira), essa situação era absurda. "Hoje, além de vender o trabalho delas nas minhas lojas, saber que poderei vê-las caminhando por si próprias é o que mais me inspira", conta o estilista, que não reclama mais das longas viagens. "Mesmo que consumam tempo e empenho, essas andanças me alimentam, inspiram e renovam. Não deixo de viajar nunca mais."

 

E onde entra O Turista Aprendiz nesta coleção? "Sou fascinado pela obra do Mario de Andrade, principalmente pelo Turista Aprendiz, porque ele faz seu diário de bordo das andanças do Sudeste ao Nordeste, descobrindo riquezas das regiões que, até a Semana de Arte Moderna de 22, passavam despercebidas. Sempre quis fazer a viagem que ele fez, mas nunca tive tempo."

 

O estalo veio em uma das viagens de volta de Passira. "Parei e pensei: ‘Sou um turista aprendiz!’ Adoro fotografar, filmar, escrever sobre essas viagens. E resolvi contar minha viagem. Se eu soubesse escrever, escrevia. Mas sei é fazer roupa. Então, criei uma coleção."

 

Coleção. Traduzindo essas viagens em informação de moda, Fraga traz o calor do Nordeste em uma coleção ‘com muita pele’. Ao gosto dele, as formas continuam amplas, perfeitas para um dia quente, mas os vestidos perdem comprimento e as pernas aparecem sob godês, drapeados e lacinhos. Os boleros com cara dos anos 20 chegam com um shape contemporâneo. "Para meus padrões, é uma mudança e tanto, mas é o que o Nordeste pede. É uma região muito feminina." A palheta de cores surge das paredes caiadas locais desbotadas pelo sol forte. "Tem coisa mais linda que um verde-água, um salmão, o azul dos azulejos, o piso colorido?"

 

Tem. O anil que tinge o tecido de algodão e dá forma às flores que, em seguida, serão bordadas com paciência de ourives pelas ‘alunas’ de Ronaldo. "Não sei bordar, mas olho para esse universo e invento outra proposta."

 

Enquanto ministrava os workshops, Ronaldo reparou que muitas mulheres levam os filhos por não ter com quem deixá-los. "Elas ficam quietinhas, prestando atenção. Se pelo menos uma criança aprender o ofício, se se tornar um estilista, meu dever estará cumprido."

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