Ronaldo Fraga cria coleção inspirada em Cândido Portinari

Estilista trouxe as cores do céu e da terra de Brodósqui, cidade natal do pintor, para a SPFW

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

02 Abril 2014 | 18h03

Ronaldo Fraga foi buscar nas cores de Cândido Portinari a inspiração para seu desfile verão 2015, que o ele acaba de desfilar na São Paulo Fashion Week. E o que se viu foi um retorno à memória e à infância do pintor

Na coleção O Caderno Secreto de Candido Portinari, as referências ao trabalho do pintor está em cada detalhe, desde as cores é até os tecidos e formas. Nas cores, há basicamente duas escolhas: o laranja e o azul. "Portinari dizia que pintava o céu de Brodósqui, cidade onde nasceu, no interior paulista, e sua terra. As cores são referência a isso. Ele, apesar de ter ido para Paris, dizia que usava sapato de verniz, mas se sentia um camponês como a gente de sua cidade", contou Fraga. "E foi esta gente, trabalhadora, que vivia no campo, que ele queria retratar. Os homens italianos, como sua família, que não tinham dinheiro para comprar um terno bom, mas que gostavam de se vestir bem. E que, por isso, faziam paletós de saco de arroz. É esta beleza que Portinari retratou que me inspirou", completou Fraga.

O estilista conta que a vontade de criar uma coleção inspirada na obra de Portinari surgiu ao longo do processo de trabalho dos desfiles dos últimos anos. Depois de Carlos Drummond de Andrade, Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, chegar a Portinari era um caminho natural para o estilista mineiro. "Eu precisava me sentar a mesa com ele, que foi um dos maiores pintores que o Brasil já teve. Pintou mais de cinco mil obras, testemunhou a modernização do Brasil, retratou o camponês, seja branco, negro, miscigenado... Seu trabalho é incrível", explica Fraga.

Na passarela, esta inspiração se traduziu em formas geométricas que remetem aos retângulos e triângulos dos balões de São João e dos pipas que tanto povoaram a pintura de Portinari. "Ele, que tinha alma de camponês, retratou os costumes dos brasileiros como poucos. Do circo ao São João, passando pelas brincadeiras infantis", disse o estilista.

Nos shapes, as peças são amplas em cima e retas nas calças, saias e shorts. Camisas volumosas, mas de corte preciso, mangas cheias, mas bem estru.uradas. Já nas calças, o corte é seco e sóbrio, com alguns modelos mais volumosos no quadril, que ganham bom caimento com pregas e bolsos.

Nas texturas, o top em tressé de fita colorida reproduz os geometrismos da pintura, assim como a bolsa-pipa, que imita o brinquedo. Os xales que abrem o desfile, apesar de aparentarem ser rústicos, são confeccionados em seda pura. O toque é macio e a imagem é forte. Para reproduzir as anotações e os rabiscos do caderno de Portinari, a coleção ganhou peças com fios soltos, como se o traço do lápis ganhasse uma terceira dimensão.

Na cartela de cores há ainda o palha, o branco, o amarelo e o marinho. Este ganha destaque nos últimos looks, que reproduzem azulejos e telas. Destaque também para os looks que trazem as cores dos desenhos, como em um estudo em aquarelas.

Com a aprovação da família do pintor, mais precisamente de seu filho João Cândido, que está em Paris para a montagem da exposição dos paineis Guerra e Paz no Grand Palais, que abre em 08 de maio. "Ele me deu total liberdade. Queria até me mostrar anotações que nunca foram a público de seu pai, mas eu preferi só ver depois da coleção. Eu já tinha muitas ideias, referências e beleza para me inspirar. Ele é de fato um dos grandes do mundo", comentou Fraga, que, no livreto que acompanhou a coleção, resumiu muito bem o espírito de sua moda: "No Brasil novo - rico, a obra de Portinari ainda grita e seu legado se faz caro em tempos desmemoriados e apáticos."

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