Ronaldinho investe em produção teatral

O jogador de futebol Ronaldo, do Inter de Milão, está atacando também no teatro. Ele é um dos patrocinadores da peça A Controvérsia, de Jean-Claude Carrire, que estréia no dia 8, no Teatro Glória, com produção do jornalista Pedro Bial e direção de Paulo José. Ainda este ano ele co-patrocina também o projeto Nelson Rodrigues - 60 anos de Teatro, de José de Abreu, com a montagem de A Mulher sem Pecado, e ciclos de leituras e filmes.Ronaldo contou que tem visto as últimas estréias cariocas, mas a idéia de investir em teatro vem do ano passado. O ator José de Abreu propôs seu projeto a ele, ao técnico da seleção brasileira, Wanderley Luxemburgo, e a outros jogadores, por meio da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ronaldo foi o primeiro a aderir. "Tive várias ofertas e minha equipe preferiu estas duas", disse o craque. "Vamos ver no que dá e depois a gente pensa em outras."Ele estréia no teatro com um espetáculo político. Jean-Claude Carrire foi roteirista de Luiz BuÏuel (Bela da Tarde, O Charme Discreto da Burguesia, etc.) e até hoje se coloca na contramão do cinema comercial. A Controvérsia foi originalmente um telefilme para comemorar, em 1992, os 500 anos do descobrimento da América. "Em vez de louvar Cristóvão Colombo, Carrire discutia o confronto de culturas e a questão de uma dominar a outra", lembrou Pedro Bial, que traduziu o texto encenado, também, no ano passado na Europa.A peça fala de uma reunião de padres católicos em Valladolid, na Espanha, em 1550, na ressaca dos grandes descobrimentos, com o objetivo de discutir se os índios tinham alma, se eram seres humanos e podiam ou não ser escravizados. Apesar de a história ter registrado até uma bula papal concedendo alma aos índios, Bial garante um desfecho surpreendente para a peça. "E é absolutamente atual quando discute qual cultura pode dominar a outra, o direito de um país influir nos destinos do outro e a hegemonia entre as nações", explicou Bial.A história tenta trazer a questão para os dias de hoje. Matheus Nachtergaele e Otávio Augusto são os padres e têm Paulo José e Ivan de Albuquerque como mediadores. A peça traz ainda o humorista Anquito, do tempo das chanchadas, que volta a atuar aos 75 anos de idade e 20 anos depois de ter parado. "Ele está em plena forma como o bobo da corte e faz malabarismos inacreditáveis", contou Paulo José, depois de confessar sua dupla paixão pelos gramados e pelo palco. "Nessa divisão entre alta arte, que seria o teatro, e arte popular, que seria o futebol, preferimos juntar os dois."Os ensaios já duram um mês, mas Ronaldo ainda não assistiu a nenhum. Mesmo assim, os planos são ambiciosos. O espetáculo tem dez atores no palco e um orçamento de R$ 400 mil, dos quais a BR Distribuidora entrou com R$ 150 mil. Outro patrocinador não revelado entra com quantia igual e o jogador, com o restante. "Fora das leis de patrocínio porque, como residente italiano, Ronaldo não paga impostos no Brasil", explicou Bial. "Vamos cobrar ingressos a preços populares e trazer escolas para assistirem, porque nosso objetivo é ter o maior público possível".Bial, Paulo José e José de Abreu ressaltaram a importância de romper a imagem de alienação dos jogadores de futebol, lembrando que Vampeta, do Corinthians, foi pioneiro na área da cultura, reformando um cinema tradicional de Salvador. Mas Ronaldo foi modesto quando lhe perguntaram se ele tem intenção de atuar também, como já ocorreu com Pelé. "Nada disso, ainda tenho de ver muita peça para começar a pensar nisso", assegurou o jogador.

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