Ron Daniels volta ao Rio para dirigir "Tosca"

A montagem da ópera Tosca, de Giacomo Puccini, que estréia hoje no Municipal do Rio, é a volta de um filho pródigo. O diretor Ron Daniels, que vive fora do País há quase 40 anos, dos quais passou boa parte como diretor da Royal Shakespeare Company, realiza o sonho de trabalhar de novo aqui. "Estudei essa obra para montá-la nos Estados Unidos e esse convite veio na hora em que estava à disposição para vir ao Brasil", conta Daniels, que em 2000 dirigiu Rei Lear com Raul Cortez. "Sou um contador de histórias e o que me atrai na Tosca é o perfeito entrelaçamento de música e enredo e a atualidade deste." A história de amor, ciúme e intriga política passa-se em 1800, numa Itália dividida e envolta nas guerras napoleônicas. Foi sucesso imediato na estréia em Roma e no Rio, em 1900, e nunca deixou de encantar o público. "A Tosca é teatro musicado em que a ação trabalhada e as melodias ricas se entrosam perfeitamente", diz o diretor. "Essa é uma característica de Puccini, mais que em Verdi, por exemplo, que criou árias mais longas." A cantora Francesca Patanè, que veio da Itália para viver a personagem-título em duas das cinco récitas (hoje e no dia 24), concorda e se define como uma atriz que canta. "A Tosca tem temperamento, paixão. A história cresce através dos três atos e a cantora pode mostrar suas capacidades vocais e dramáticas", explica ela, que lembra uma cantora pop, com seus cabelos ruivos cacheados, emoldurando um belo rosto sobre um corpo de modelo. Ela ri da comparação. "As pessoas gostam de ver o que é belo e para atrair o público jovem, com tantas opções de entretenimento, é preciso adequar-se. Mas sem fugir à essência da ópera, porque é a música que seduz as pessoas." Para o diretor musical dessa montagem, maestro Sílvio Barbato, também diretor artístico do Municipal, basta tornar o ingresso acessível da ópera em geral e a Tosca, em particular, para atrair o público. Ele estreou com esta obra em 1985, na última vez em que foi montada no Rio, e hoje sente as condições ideais para levar a Sinfônica e o Coro da casa a executar a música idealizada por Puccini. "Nestes 18 anos, muito se descobriu sobre ele e seu modo de compor e conhecem-se mais detalhes para se chegar ao opus ideal", diz. "A Tosca é meu primeiro amor e minha ópera preferida, pois o entrosamento entre música e drama atinge a perfeição." Por tudo isso, Ron Daniels decidiu por uma montagem enxuta, o que levou o cenógrafo Marcos Flaksman a não reproduzir os cenários pedidos pelo libreto original (a igreja de Santo Andrea, o Palácio Farnese e o castelo Sant´Angelo, três monumentos renascentistas e pontos turísticos de Roma), mas a criar o clima majestoso de cada ambiente. "Ópera é um espetáculo musical por excelência e nada realista. Por isso, reproduzir pura e simplesmente os ambientes onde a ação se passa nem sempre é ser fiel à obra", diz ele. "Já se gravou a Tosca onde a ação se passa e o resultado não agradou a ninguém."

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