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Luis Fernando Verissimo
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Rompimento

Dá para entender o que leva jovens a fugir de uma rotina familiar ou das suas próprias frustrações e perseguir um sonho, uma aventura ou um ideal - sempre longe de casa. O protótipo desse impulso reincidente, e um chavão literário, é o circo, que passa pela cidade pequena e arrasta atrás de si corações juvenis fascinados por uma trapezista ou pelo romance da vida na estrada, deixando mães desesperadas. A fuga pode ser apenas de uma vida careta para uma vida alternativa sem necessariamente sair de casa, desde que a família aceite que você passe a usar um penteado porco-espinho e uma fechadura no umbigo, ou pode ser um rompimento radical com tudo, a começar pela família.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

05 Março 2015 | 02h06

A fuga por um ideal teve seu momento mais lembrado durante a Guerra Civil espanhola, quando muitos jovens do mundo inteiro foram lutar ao lado das forças legalistas contra os fascistas do Franco. A causa era indiscutivelmente justa e abraçar uma luta alheia, na Espanha, foi um exemplo de engajamento (segundo alguns, o último em estado puro da História) que proporcionava aos jovens voluntários, ao mesmo tempo, um gosto de altruísmo político e um gosto de aventura. Exagerando só um pouco, hoje quem busca o mesmo sentimento dos que arriscaram a vida resistindo ao Franco vai correr dos touros em Pamplona. A causa é nenhuma, mas o risco de vida, ou pelo menos de uma corneada, é real.

Pensei nisso lendo que hoje muitos jovens, também de várias partes do mundo, tentam chegar à zona de conflito para se alistar no Estado Islâmico. Como os que foram lutar na Espanha, vão em busca da aventura, vão por convencimento, vão por admiração, vão talvez apenas porque não exista outra forma de rompimento radical com tudo tão radical quanto este disponível. Mas imagino que nenhum deles deixou de ver, na TV, a cena do prisioneiro do EI sendo incendiado dentro de uma jaula. E é impossível imaginar que algum deles tenha dito, ou pensado: "Isso é pra mim", e ficado ainda mais decidido a aderir aos autores da cena terrível.

Eu sei, a situação naquela região é complicada demais para ser reduzida a uma questão de nós contra os monstros. O que preocupa mesmo, vendo um homem sendo queimado vivo dentro de uma jaula pelo EI, é que isto não afete seus jovens simpatizantes. Talvez, depois de tantas barbaridades vistas, o conceito de monstruoso tenha mudado. Talvez se horrorizar tenha se tornado uma reação careta.

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