Rompendo a inércia dos repertórios sempre iguais...

Rompendo a inércia dos repertórios sempre iguais...

Jean-Louis Steuerman executa Trio n.º 1 para piano e cordas de Mendelssohn

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Não há gênero mais digno, escreveu Robert Schumann numa de suas especialíssimas críticas musicais, comentando o Trio n.º 1 para piano e cordas de Mendelssohn. Assim como admirava a maestria de seu amigo, ele também reservou alguns de seus mais geniais sortilégios para sua produção camerística. Pena que hoje em dia só se executem incessantemente duas de suas obras, o Quarteto e o Quinteto para piano e cordas. Ninguém discute o seu valor, mas vale a pena incursionar por outras peças notáveis, raras nas salas de concerto.

Por isso, foi importante o concerto do início do mês, dia 1º. , na Sala Cultura Artística Itaim (ex-Promon). Rompeu a inércia da repetição de repertório; contou com excelentes músicos; e promoveu um breve, porém interessante, bate-papo da jornalista Gioconda Bordon com o pianista Jean-Louis Steuerman, o trompista Luiz Garcia, o violinista Pablo de Leon e o violoncelista Antonio del Claro.

As Cinco Peças em Estilo Popular, op. 102, escritas em abril de 1849, foram tocadas pela primeira vez para Schumann por Clara ao piano e o violoncelista Andreas Grabau, da Concertgebouw como presente de aniversário no dia 8 de junho. O experiente Del Claro entrou meio frio e claudicou um pouco na dificílima primeira peça; mas virou o jogo nas quatro seguintes, com execuções memoráveis, sobretudo na segunda, Lento, uma emocionante berceuse lírica. Dali em diante foi total a integração entre Steuerman e Del Claro. Pena que o programa não traduziu as indicações de andamentos em alemão.

O Adagio e Allegro também foi presente, só que de Robert para Clara - e disfarçado, porque na verdade é uma declaração de amor escrita no Dia dos Namorados, 14 de fevereiro do 1849. Para o Adagio, Schumann indica "lento, com expressão íntima"; e para o Allegro, "rápido, com fogo". Além disso, a peça pretendia difundir a nova trompa cromática de válvulas, inventada em 1813. Garcia afirmou que esta é a obra mais difícil do pequeno repertório camerístico para seu instrumento. Nem precisava, porque sua performance superlativa atestou o fato - foi simplesmente apaixonante, tanto no lírico Adagio quanto no "fogoso" Allegro.

Ambição. O clímax, porém, aconteceu no final. O Trio no. 1 em ré menor para piano e cordas op. 63, escrito em 1847, é de longe o mais ambicioso e bem-sucedido dos quatro de Schumann. De novo, a tradução dos movimentos teria ajudado a compreensão. O encorpado "Com energia e paixão" inicial inclui um momento mágico, onde as cordas tocam "sul ponticello", com o arco bem pertinho do cavalete, criando sonoridades etéreas e sutis; o Scherzo, selvagem, foi antologicamente tocado como Schumann recomenda: "vivo, mas não rápido demais"; o "lento, com sentimento íntimo" é o clímax expressivo desta obra-prima, contrastando com o final "Com fogo".

Pablo e Del Claro foram parceiros adequados para o fulgurante piano de Jean-Louis Steuerman. Ele comandou com rara habilidade o discurso musical, como a escrita de Schumann induz. É um pianista de exceção que, sem dúvida, deveria gravar mais música de câmara.

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