Romeu em duas versões

Com carreiras em ascensão, tenores Fernando Portari e Atalla Ayan se dividem no papel

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Bernard Holland, temido crítico do New York Times, escreveu em um artigo de 1985 que o Romeu e Julieta de Gounod era uma ópera tão atormentada pelo melodrama que recriá-la de alguma maneira funcional em pleno século 20 exigira certo grau de esforço - e ingenuidade.

Talvez seja mais simples do que isso - basta acreditar na música do compositor que, ao adaptar a história de Shakespeare, criou um longo dueto de amor entre os dois personagens principais. A escolha dá um caráter etéreo à trama, cria um recorte no espaço e no tempo no qual o contexto histórico é menos importante do que a investigação do que move a alma humana. E faz isso por meio de uma música rica em atmosferas e texturas. Ela preenche o texto, dá a ele significados e possibilidades múltiplas de leitura, em especial nas mãos sensíveis de um maestro como Luis Gustavo Petri, o grande nome da montagem da ópera estreada na quarta-feira no Teatro São Pedro.

Os dois tenores responsáveis por encarnar o papel de Romeu chegaram à montagem depois de lances importantes de suas carreiras. O carioca Fernando Portari vem de uma temporada europeia, com passagens pela Staatsoper de Berlim e pelo o Scala de Milão; já o paraense Atalla Ayan acaba de fazer sua estreia com a companhia do Metropolitan Opera, em Nova York. A expectativa, portanto, era alta - e se confirmou. São leituras diferentes do papel. Portari colore como que com um pequeno pincel as linhas melódicas, construindo com delicadeza momentos de lirismo comovente, como o final do segundo ato. Ayan tem um timbre mais escuro, que facilita a construção de contrastes interpretativos, como no dueto do quarto ato, no qual alterna entre a necessidade de partir e o desejo de ficar ao lado da amada.

Não há Romeu sem Julieta. Tanto Rosana Lamosa, na quarta, como Laryssa Alvarazi, na quinta, começaram um pouco frias, mas a voz foi se soltando já na ária do primeiro ato, Je Veux Vivre. São timbres bonitos, mas Rosana resolve melhor - vocal e cenicamente - o claro-escuro da escrita do papel. Grandes em cena estiveram os barítonos Leonardo Neiva e Amadeu Tasca, como Mercutio, e o baixo Saulo Javan como Frei Lourenço; no elenco de apoio, vozes pouco expressivas, com problemas de emissão e afinação.

A montagem de Vinicius Machado recorre a um clima sombrio. Debaixo de uma profusão de referências - que vão de Tim Burton a Magritte - parece haver uma crença comum na inexistência - ou seria a impossibilidade? - do amor. No limite, ele propõe um espaço cênico no qual Romeu e Julieta seriam os únicos a não compartilhar dessa verdade universal, que é relembrada a todo instante com tons carregados de ironia por um grupo de clowns que acompanham o desenrolar da ação.

Entre a crença e a descrença irrestritas no amor há um enorme leque de sentimentos, sensações e descobertas a serem feitas no inconsciente de cada um. Assim, narrar uma história de amor a partir de sua negação, em pleno começo do século 21, soa tão anacrônico quanto a crença ingênua em um sentimento que seria mais forte do que tudo - e que o diretor parece querer criticar.

ROMEU E JULIETA

Teatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, telefone 3667-0499.

Hoje (Ayan e Alvarazi) e amanhã (Portari e Lamosa), às 17 h. R$ 30.

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