´Romeu e Julieta´, a ópera, pela primeira vez no Brasil

Um ineditismo de quase 150 anos cai por terra neste fim de semana, quando começam as récitas de Romeu e Julieta, no Teatro Municipal. A história é pra lá de conhecida ? e de amor, ainda por cima. O autor, um dos mais celebrados da França, compôs algumas das mais belas melodias da história da ópera ? e aí entram desde as árias até os quatro duetos de amor dos personagens. É mesmo de se espantar que tenha levado tanto tempo para que a peça de Gounod, composta em 1867, chegasse aos nossos palcos. Mas a falha, digamos, será corrigida amanhã, quando estréia a montagem da Orquestra Experimental de Repertório, sob direção de Jamil Maluf e José Possi Neto.Motivos para explicar a ausência de título tão conhecido como Romeu e Julieta de nossos palcos não faltam ? e alguns levam a uma reflexão sobre o caráter das programações dos teatros do País, como apontam maestros e especialistas ouvidos pelo Estado nesta edição. Mas, de volta à montagem, não é apenas o ineditismo que chama a atenção. Estará no palco um interessante painel do nosso canto lírico, encabeçado pelo tenor Fernando Portari e a soprano Rosana Lamosa. E, ao lado de tudo isso, o que tem sido a marca de inovação das montagens da Experimental.A inovação é, em primeiro lugar, musical. Está se utilizando a edição Choudens da partitura ? em outras palavras, a mais recente disponível, material fresquinho vindo de Paris. Ao seu lado, porém, pelo menos algumas páginas empoeiradas, velhas e difíceis de achar: as da ária "Dieu! Quel Frisson". Julieta, após casar-se secretamente com Romeu, ouve do pai a notícia de que vai desposar Paris. O pai deixa o quarto, ela entra em desespero ? e canta a ária, que teve trajetória tão trágica quanto a da personagem. Considerada "pesada demais" pela soprano que participou da estréia da ópera, foi cortada. E nunca mais reinserida na partitura ? uma das interferências que renderam ao compositor certo tempo de depressão após ter alterado tanto aquela que considerava sua obra-prima.No que diz respeito à concepção cênica, a inovação é, na verdade, a aceitação da atemporalidade da história de Romeu e Julieta, o que sugere ao diretor não apenas o abandono da época em que se passa a ação como também uma montagem que incorpora uma linguagem de sonhos mais do que sugestões realistas. Após prender Ceci em uma gaiola gigante e narrar o Falstaff verdiano na década de 20, Possi parece estar atrás de novas polêmicas.O mesmo casal, uma nova roupagemA história trágica de Romeu e Julieta já foi contada diversas vezes ? inclusive por dezenas de compositores, inspirados pela peça de Shakespeare. Mas a história da peça também é a história das adaptações feitas a partir dela ? no cinema, já foi ambientada tanto em Verona quanto na Miami do século 20; na Broadway, virou, pelas mãos de Bernstein, um conto sobre a intolerância e o preconceito na Nova York da década de 50. E assim por diante, o que só torna cada vez mais difícil criar algo de novo a partir do texto."Nossa produção não busca ser original em conceito, mas sim vestir a história de um caráter contemporâneo", explica Jamil Maluf. No palco, a afirmação se traduz de diferentes formas. O diretor José Possi Neto não propõe uma reambientação bem definida: em outras palavras, não se levou a ação a um período determinado, diferente do original. "O que é proposto é uma leitura contemporânea, com ligação direta com a música, que aparece em coisas como a própria estética corporal", explica Fernando Portari.Mas há, também, sugestões pontuais. Julieta, explica Rosana Lamosa, é algo como uma patricinha moderna; Romeu, e aí quem explica é Portari, pertence a uma gangue, enfim, é um jovem de um universo bastante diferente do de sua amada. Mercutio, na esteira de análises relativamente recentes da peça, deixa transparecer uma certa atração por Romeu. Enfim, detalhes, pistas, que vão compondo o cenário da produção que, no final das contas, parece ter um certo caráter de onírico ? e, no sonho, valem tanto o tom sombrio do casamento de Julieta com Paris como as belas e singelas cenas de encontro entre os protagonistas.O julgamento final, claro, é do público. E, se você não gostar do que vir, feche os olhos e preste atenção na música de Gounod. "Chega a ofender a beleza da partitura", brinca o maestro Maluf durante os ensaios. Não foi por acaso que Gounod considerou Romeu e Julieta sua principal ópera, mesmo que tenha sido um tanto obscurecida pelo sucesso anterior do Fausto, outro de seus grandes trabalhos."Quando a gente observa a quantidade de nuances, detalhes, fica difícil discordar do seu veredicto. A abertura, por exemplo, com um coro à cappella, já dá a dimensão da tragédia, joga o público na atmosfera conturbada de Verona", explica o maestro. E há outros momentos igualmente importantes. "A cena do balcão de certa forma já antecipa Debussy, da mesma forma que o coro do terceiro ato, momento em que morrem Mercutio e Tebaldo, possui uma grandiosidade, uma dramaticidade digna de Verdi", completa Maluf. Gounod lança mão de diversas técnicas e cria ambientes musicais muito distintos, sempre de acordo com as sugestões dramáticas do texto ? de certa forma, é nisso que está a beleza da ópera como um todo e, certamente, deste Romeu e Julieta.Mas ópera também é voz. E, para os solistas, a peça de Gounod oferece boas dificuldades. "É sem dúvida o papel mais exigente da minha carreira", diz Portari, que estreou em São Paulo há pouco mais de dez anos, também com Jamil Maluf. "O Romeu tem um peso, um caráter musical trágico, caminha para a tragédia. Mas, ao mesmo tempo, tem passagens extremamente líricas, os encontros com Julieta", explica o tenor. "Os duetos são bastante longos, e isso exige resistência vocal", complementa Rosana.Romeu e Julieta. De Charles Gounod. 200 minutos. Teatro Municipal (1.464 lug.). Praça Ramos de Azevedo, s/nº, Centro, 222-8698, metrô Anhangabaú. Domingo, 17 horas; terça, quinta, sábado (19) e segunda (21), 20 horas. De R$ 30 a R$ 100

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