Guilherme Pupo/ Divulgação
Guilherme Pupo/ Divulgação

Romancista Cristovão Tezza retorna ao conto com 'Beatriz'

Novo livro do escritor catarinense reúne sete pequenas histórias de ficção e análise sobre a escrita

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h07

Cristovão Tezza não se julga um contista. "Escrevi um único livro de contos na vida, A Cidade Inventada, histórias sofridamente criadas e buriladas entre 1969 e 1979 com a intenção de aprender e dominar as artes da ficção", escreve ele no prólogo de Beatriz (Record), sua nova incursão no gênero.

 

Trata-se da reunião de sete histórias curtas - duas inéditas -, além do próprio prólogo, em que Tezza desenvolve uma minuciosa análise sobre o ato da escrita e, particularmente, da gestão desse livro. O autor catarinense - que lança nesta quarta-feira, 23,  a obra na Livraria Cultura do Conjunto Nacional e participa amanhã do evento Cabeça de Escritor, no Sesc Pompeia - revela a dificuldade que enfrenta ao criar um personagem. "Essa misteriosa representação, esse duplo esquisito que é a alma de toda a narrativa, é para mim uma construção penosa, quase uma figura verdadeiramente real que vou desbastando a duros golpes de linguagem até ela se tornar outra coisa, até se constituir num espírito singular, cuja voz tenha um bom grau de autonomia e não fale o tempo todo por mim", continua, na introdução.

 

A origem de Beatriz é curiosa. Tezza conta que, no fim de 2006, depois de participar de um tedioso debate literário, escreveu, de uma só vez, Alice e o Escritor, conto que lhe permitiu experimentar uma nova forma de manejar a sintaxe, de controlar o ritmo. E, como sempre acontece em experiências desse tipo, Tezza sentiu-se diferente depois da experiência, como se tivesse passado por um reajuste na percepção do mundo e seus valores.

 

Os personagens surgiram a partir de experiências passadas: o escritor Donetti vinha de um romance anterior, Ensaio da Paixão, ainda que fossem totalmente distintos. E Alice surgiu quase no final do conto, mas de forma arrasadora, pois Tezza conta que não conseguia esquecê-la. A ponto de figurar em outra história, ganhando mais detalhes pessoais que lhe definiam o contorno - surgia, agora, como uma divorciada. Já Donetti retornou em um conto inspirado em Machado de Assis para uma antologia. Até que, transbordando a narrativa curta, os dois personagens voltaram no romance Um Erro Emocional, lançado no ano passado, quando Alice já se metamorfoseara em Beatriz.

 

No novo livro de contos, ela surge como uma revisora de textos, que aproveita uma proposta indecente e outra, para refletir sobre a vida. Sobre o assunto, Tezza respondeu às seguintes questões.

 

O prólogo já prepara o leitor para uma reflexão entre leitor, autor e a liturgia do trabalho. Por que o conto lhe serviu especificamente para esse convite?

 

Não foi exatamente pelos contos; na verdade, este ano está sendo um momento especialmente reflexivo na minha vida. Estou terminando um ensaio autobiográfico sobre a prosa e sobre minha formação como escritor, em que passei mergulhado nos últimos meses e que será lançado em 2012 pela Civilização Brasileira. O prólogo de Beatriz foi uma ideia súbita que me ocorreu ao organizar o livro, e de certa forma abriu o caminho para eu falar do meu trabalho de um modo não acadêmico. Como eu disse no prólogo, não me sinto exatamente um contista, o que já é um bom começo de conversa. Um livro de contos girando sempre em torno da mesma personagem é mesmo mais uma ideia de romancista. Uma distinção que, aliás, não me preocupa.

 

Você acredita na existência de um aspecto litúrgico na prosa?

 

Bem, é engraçada a ideia de pensar o prosador como uma espécie de sacerdote. A ideia de liturgia implica alguma solenidade, mas, só para brincar com o conceito, eu diria que os poetas costumam ser mais litúrgicos que os prosadores… Eu sou um tanto "litúrgico" ao escrever, com a exigência do silêncio, do isolamento e de uma certa arrumação neurótica do que eu deixo ficar em cima da mesa de trabalho enquanto escrevo. Mas não sei o que disso passa ao texto…

 

Por que o conto é um gênero tão em desprestígio no Brasil?

 

Que o conto tem menos prestígio que o romance entre as editoras é dessas certezas lapidares do mundo da literatura; só ganha mesmo da poesia. Mas não estou certo de que esse desprestígio seja real entre os leitores ou corresponda mesmo a uma produção menos importante na literatura brasileira. Basta lembrar que dois dos maiores nomes da nossa literatura que se consolidaram nas últimas décadas são Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, dois contistas extraordinários. E um levantamento estatístico certamente mostraria que se lançam muitos livros de contos de autores brasileiros todos os meses; eventualmente, sofrem da mesma falta de visibilidade da literatura brasileira em geral, mas acredito que não em função do gênero.

 

Você acredita que a literatura está dando conta da realidade de hoje, tão complexa e acelerada?

 

É uma questão difícil de focar. Se a literatura pretender "dar conta da realidade" de hoje, num sentido amplo, ela certamente vai fracassar. Ela tem de descobrir quais são os pontos nevrálgicos da realidade, ou da condição humana, ou dos temas que pretenda enfrentar, que unicamente ela seja capaz de dar conta. A literatura não tem de mimetizar nada nem correr atrás de toda borboleta que aparece voando. É uma arte lenta; o segredo é a sua densidade. Acho que, especialmente no Brasil, está havendo um renascimento da prosa, como linguagem, depois de 30 ou 40 anos de domínio de uma concepção poética centralizada da literatura, que afetou substancialmente nossa prosa. É uma conversa comprida. No ensaio que estou terminando tento desenvolver essa ideia, que me surgiu ao pensar na minha própria formação de escritor dos anos 1970 para cá.

 

Não lhe parece impressionante o poder que a ficção tem de interferir na realidade e, até, de criar novas realidades?

 

A ficção é fantástica; aliás, ela nem é bem ficção (parodiando Faulkner, que dizia: "O passado não está morto; aliás, nem mesmo é passado"). A prosa de ficção chama para si duas funções aparentemente antagônicas: criar realidade ao mesmo tempo que a reflete; e ela nunca é apenas um objeto passivo de representação, mas uma experiência viva entre pessoas, a voz que narra e a voz que lê, tendo entre elas uma muralha intransponível de realidades.

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