Romance noir nas alturas

Lituma nos Andes, de Mario Vargas Llosa, traz mitologia, relato erótico e reportagem

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Da plural e matizada obra do peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010 e colaborador do Estado, é consenso que a fase que se inicia em 1984, com o subestimado romance História de Mayta, até a publicação do excepcional thriller político A Festa do Bode, em 2000, foi um período menor em sua trajetória.

Até certo ponto, Llosa foi vítima de sua própria crítica literária. Defensor de um projeto totalizante de literatura, que executou em obras-primas como Conversação na Catedral e A Guerra do Fim do Mundo - inspirado em Os Sertões, de Euclides da Cunha -, quando se lançou em livros de câmara (O Falador e Elogio da Madrasta), era como se estivesse em franca decadência. No entanto, os romances desse período ilustram diálogos com temas e espaços que antes não apareciam em seu trabalho. O drama da alcova (Elogio da Madrasta), o comentário político (Quem Matou Palomino Molero?), a questão indígena (O Falador) - há uma energia liberadora nesse arco de abordagens das obras de Llosa em que ele dilui técnicas narrativas sofisticadas em busca de uma contagiante legibilidade.

O melhor de todos os livros de tal fase é, sem dúvida, Lituma nos Andes. Marcando o retorno do cabo Lituma ao proscênio, personagem de várias narrativas de Llosa, o fio central do romance é uma investigação do protagonista e de seu ajudante em um vilarejo isolado nos Andes. Eles buscam saber o que aconteceu a três habitantes locais. As suspeitas recaem sobre o movimento guerrilheiro Sendero Luminoso, que na época da trama, início dos anos 1990, perdera completamente seu objetivo revolucionário original e se transformara numa espécie de máquina de assassinatos e pilhagens sem sentido.

Entremeando esse núcleo central de ação, há outros relatos. O ajudante de Lituma, durante as noites de insônia, conta uma história de amor desaventurada; pequenas narrativas de crimes se acumulam, aumentando a sensação de que, a qualquer momento, o cabo e seu ajudante podem ser também mortos; Adriana, a cozinheira da cantina local, recupera a história do vilarejo e relata os acontecimentos anteriores à chegada dos investigadores. Com sua mistura de romance noir, narrativa erótica, reportagem e, curiosamente, relato mitológico, Lituma nos Andes é um romance chave que se localiza entre os projetos mais totalizantes de Llosa - os quais ele logo retomaria com A Festa do Bode e as novelas de câmara.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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