Romance em ré bemol

Por que ré bemol? Foi o próprio Chopin quem definiu assim sua estranha relação com a condessa Delfina Potocka. Um documentário inglês revê esta história

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

Nenhum outro compositor preenche como Chopin a figura romântica e andrógina do criador musical ao mesmo genial e frágil. Nariz adunco, apenas 44 quilos, angustiava-se ao apresentar-se em público (só fez 30 recitais/concertos em sua vida). Viveu com a escritora francesa que, além do nome masculino, George Sand, vestia quase exclusivamente terninho e fumava charuto. Ela qualificou oito dos nove anos de romance como de "devoção maternal". Morreu aos 39 anos de tuberculose, após ter revolucionado a música para piano de modo definitivo. Se a literatura pianística fosse uma Bíblia, Bach seria o Velho Testamento com os 48 prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado e Chopin o Novo Testamento com os 24 estudos opus 10 e 25 e os 24 prelúdios opus 28. Mas, para o grande público, Chopin é o autor das polonaises, mazurcas e sobretudo os noturnos - o patriota que pediu para ter seu coração arrancado de seu peito e levado à sua querida Polônia natal.

O docudrama O Mistério de Chopin - o estranho caso de Delfina Potocka, originalmente lançado em VHS em 1999 - data dos 150 anos de morte do compositor - desconstrói esta imagem angelical. Foi um ranger de dentes furioso entre melômanos e musicólogos, além de políticos poloneses e do Instituto Chopin de Varsóvia.

Amante insaciável. Também, não era para menos. Tirou-se do armário a história do romance turbulento do compositor com a condessa Delfina Potocka, uma autêntica devoradora de homens nas primeiras décadas do século 19. E, a julgar pelas 108 cartas por ela recebidas de Chopin, que sua bisneta, Paulina Czernicka, divulgou logo após a Segunda Guerra Mundial, em Varsóvia, o compositor assumiu-se como amante tórrido, antissemita convicto e quase antipatriota. Ou seja, tudo que a posteridade gostaria de esquecer sobre ele.

O docudrama, misto de documentário com imagens de época e recriações dramáticas, agora relançado em DVD pela Arthaus Musik no mercado internacional, é assinado pelo cineasta inglês Tony Palmer, emérito especialista em filmes de temática musical, autor de mais de uma centena de documentários musicais, que vão dos Beatles a Stravinski, do Festival de Salzburgo a Frank Zappa e Maria Callas.

Valsa do minuto. Para ficarmos no domínio dos docudramas de colorações ideológicas, também é seu o antológico e igualmente super controverso Testemunho, baseado no livro de Solomon Vokov, que mostra um Shostakovich como dissidente soviético enrustido.

Um ré bemol diferente. Foi assim que Chopin definiu a companheira nestas controversas e tórridas cartas. Dedicou-lhe seu segundo concerto para piano e orquestra, a célebre Valsa do Minuto, opus 64, no. 1 - e pediu-lhe para cantar e dançar em seu leito de morte. O romance começou em Varsóvia e permaneceu até a morte do compositor, em 1849. "É estranho e maravilhoso que a mesma energia que se usa para fertilizar uma mulher, isto é, para criar um homem, seja usada também para criar uma obra de arte". Este raciocínio tipicamente freudiano fez os especialistas desconfiarem da autenticidade das cartas. Mas ele beira a pornografia quando diz a sua Findelka que "desejo estar dentro de você, beijar teus mamilos, tuas pernas, saborear a doce entrada de tua alma, teu ré bemol, eu diria". Tudo temperado por sua música interpretada pela excelente pianista russa Valentina Igoshina.

Este erotismo certamente é novidade em Chopin. Por outro lado, a consciência de formar um estranho casal com Sand o faz dizer, nessas cartas, que "sei que nos chamam de Madame Chopin e Monsieur Sand". Palmer diz que não acredita nem desacredita nas cartas, mas esclarece que elas ajudam a entender melhor a intensidade de sua música. O antissemitismo, por exemplo, já era conhecido em cartas autênticas - mas o assunto dificilmente vem à tona porque mancha sua angelical figura.

Estranho suicídio. O caso é que Paulina Czernicka jamais mostrou os originais destas cartas - apenas cópias por ela datilografadas. Isso enfraqueceu demais o achado. A fortíssima reação na Polônia tem a ver, lógico, com a maculação da imagem de um herói nacional. Mas não precisavam, como sugere Palmer, forjar um suicídio para calar a voz da bisneta da "notoriamente hospitaleira vulva" da bela e refinada cantora Delfina Potocka, na grosseira expressão de um dos mais recentes biógrafos de Chopin, Jeremy Siepmann.

Musicalmente, além de criticar seu amigo Franz Liszt ("ele se apropria das obras dos outros sem cerimônia"), há frases interessantes, como a de que "não sou a pessoa certa para dar concertos. O público me intimida. A respiração da plateia me asfixia, os olhares do público me paralisam". Ou então as que Palmer coloca em sua boca no leito de morte, não sei se tiradas destas cartas a Delfina: "Os sons existem antes das palavras; a palavra é apenas a modificação de um som. As palavras criam a linguagem, mas os sons criam a música. E a arte de manipular o som é chamada de música. Nossos mais profundos sentimentos se expressam não em palavras, mas na música."

Estas 108 cartas sem dúvida nos ajudam a compor um retrato mais complexo e profundo de Chopin. Pode não ser o oficial nem o correto, mas é bem mais interessante que a correspondência oficial do compositor, disponível em edição nacional, da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com 700 maçantes páginas, de 2008.

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