Romance do colonialismo

Miguel Gomes fala de Aquele Querido Mês de Agosto e Tabu, grandes filmes que integram a programação

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2012 | 03h11

Miguel Gomes esteve três vezes na Argentina, mas só agora aporta em terras brasileiras. Veio para a exibição de Tabu na Mostra. Está encantado com São Paulo. "As pessoas aqui são muito calorosas. Acho que é mais uma coisa que tenho de agradecer a Manoel (de Oliveira). Ele criou um laço muito forte entre os cinéfilos e o cinema português", observa sorrindo, com seu sotaque luso. Em fevereiro, em Berlim, Tabu ganhou o prêmio da crítica. Os jornalistas brasileiros presentes na Berlinale amaram seu filme, mas Gomes - autor também do deslumbrante Aquele Querido Mês de Agosto - respondia às perguntas de forma evasiva. Parecia blasé, quando não irritado.

É outra pessoa. Simpático, sorridente. "É o calor", argumenta. Em Berlim, havia frio e neve. Em São Paulo, há também a cachaça, que ele degusta no bar do hotel na região da Paulista, onde se hospedam os Vips da Mostra. Além do sucesso de crítica, Tabu virou um fenômeno de vendas. "O filme foi vendido para mais de 40 países, o que é um recorde para o cinema de Portugal", diz.

Por trás da euforia, há um pouco de preocupação. Tabu só se tornou possível por causa de parcerias internacionais - com a empresa brasileira dos irmãos Caio e Fabiano Gullane, por exemplo. Depois disso, a crise piorou muito em Portugal. A produção está sendo paralisada, ou quase. "O que vocês estão vendo de cinema português é de antes da crise. Acho que agora, e por um bom tempo, vai haver escassez de filmes lusos nos grandes festivais."

Por mais ambicioso que seja Tabu - como reflexão sobre a memória, tanto a do cinema quanto a do passado colonial de Portugal -, o filme também é rigorosamente autoral. Feito em preto e branco, possui um tom romanesco. Na segunda parte, quase não tem diálogos, sendo contado por um narrador. O próprio Miguel Gomes brinca e o ator brasileiro Ivo Müller, presente com ele na entrevista, lembra momentos hilários da filmagem. "O Miguel chegou a criar uma frase padrão. 'What happens in Africa stays in Africa.' O que acontece na África, permanece na África. A gente repetia isso, incansavelmente, porque ele sabia que ia gravar sobre as falas da gente o relato do narrador."

Gomes acrescenta - "Se alguém fizer leitura labial do que dizem os personagens não vai entender nada. É um diálogo de doidos", diz , e ri. Outra característica do seu cinema presente em Tabu - como em Aquele Querido Mês de Agosto, que a Mostra apresenta hoje. Gomes faz um cinema de bordas, mistura ficção e documentário. Ele foi crítico, antes de virar cineasta. Sempre quis ser autor. O título evoca a obra-prima cuja direção Friedrich Wilhelm Murnau, um gênio da ficção, e Robert Flaherty, um dos maiores documentaristas do cinema, compartilharam em 1931 (no próprio ano em que o primeiro morreu num acidente de carro). A protagonista chama-se Aurora, como outro clássico que Murnau realizou nos EUA, em 1927.

Essas referências são muito fortes para ele, mas Gomes diz que seria muita pretensão querer se comparar a um artista tão grande. Lembrando Dorival Caymmi, que dizia que quem não gosta de samba bom sujeito não é, ele afirma que é impossível amar o cinema sem a contrapartida de amar Murnau. A Mostra reverencia o gênio do expressionismo exibindo no encerramento, dia 2, no Parque do Ibirapuera, a versão restaurada de Nosferatu, com trilha sonora executada ao vivo pela Orquestra Petrobrás Sinfônica, sob a regência do maestro alemão Pierre Oser.

Tabu conta a história de uma velha dama que morre. Quando isso ocorre, sua empregada de Cabo Verde e uma vizinha da falecida descobrem que no passado ela viveu um grande amor. Partem em busca desse homem. A primeira parte desenrola-se em Portugal, na atualidade. A segunda é sobre o passado colonial, mas não é sobre o tabu da guerra, sequer sobre os traumas psicológicos que imprimiu em milhares de portugueses obrigados a lutar contra a ilusão de um tempo que era já passado. Tabu, segundo seu autor, é sobre um tempo perdido. Sobre um paraíso perdido. Gomes parece poetizar quando fala de uma enorme quinta - "uma quinta que tínhamos como quintal em África." E ele prossegue, como se fosse um recitativo de Tabu. "É um filme sobre um tempo de derrisão, de sonhos perdidos no rolo da História, alheio ao romantismo de um ultrapassado conceito de África colonial. É sobre uma África, dita portuguesa, que se um dia o foi, com certeza não é mais."

Sua última fala é para agradecer a Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Pedro Costa. "Apontaram o caminho de que o cinema português, para o ser, só se fosse radicalmente autoral."A crise vai estar no próximo filme, que por enquanto só existe em sua cabeça. "Vai ser o meu Mil e Uma Noites, várias histórias contadas por uma Xerazade contemporânea."

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