Romance destacas estragos gerados pelo colonialismo inglês

Autores indianos que escrevem sobre a diáspora têm emcomum o fato de demonstrar absoluto desprezo pelo ImpérioBritânico e, ao mesmo tempo, tomar chá com a Rainha. AmitavGhosh só não costuma freqüentar o palácio de Buckingham porqueestá longe, morando em Nova York com a mulher e dois filhos. Emseu épico O Palácio de Espelho, Ghosh acompanha a saga de trêsfamílias ao longo de várias épocas, passando pela queda do reinoda Birmânia e as lutas pela independência da Índia. Tudo pararevelar como os indianos enfrentam aquele que é o maior problemados que foram criados submissos ao arbítrio do imperialismoinglês: a falta de identidade cultural. Ghosh não se exclui dessa história. Nasceu em Calcutá há52 anos e estudou em Oxford. Como ele, Arjun, um dos principaispersonagens de O Palácio de Espelho, sofre de uma espécie desurto esquizofrênico todas as vezes em que o fantasma da culturainglesa emerge para apavorar súditos indianos e afastar"perigosas" idéias de liberdade política. Se a proposta originaldos militares ingleses, ao instalar universidades na Índia, eracriar uma legião de fiéis intérpretes do Império quefacilitassem seu acesso ao povão, essa missão foi cumprida comêxito. A elite indiana não é lá muito diferente da inglesa, anão ser pela cor da pele. Em seu épico de quase seis centenas de páginas - muitasdelas supérfluas nessa exaustiva excursão cenográfica -, Ghoshacompanha a vida de um garoto pobre e órfão, Rajkumar, que, nomelhor estilo twainiano, pula de mendigo a próspero homem denegócios em Burma. Atrás de Dolly, pajem da família realbirmanesa expulsa pelos ingleses em 1885, ele ajuda o leitor adescobrir mais coisas sobre a Índia do que talvez fossenecessário. Ghosh certamente escreveu o livro pensando em suatransposição cinematográfica. Com freqüência perde o foco paradescrever uma paisagem, afastando-se da estrada principal. Emoutras palavras: Amitav Ghosh não é Edward Morgan Forster.

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