Romance de Melville inspira espetáculo no Sesc Belenzinho

Um homem subitamente passa a repetir uma frase - preferia não fazer - como se fosse uma espécie de mantra, uma recusa do mundo sem revolta, quase doce. A atriz e dramaturga Claudia Schapira extraiu esse mote do romance Bartebly, um Escriturário, de H. Melville para criar o teatro musicado Bartolomeu, o Que Será Que Nele Deu, que estréia nesta sexta-feira no Sesc Belenzinho.Bartolomeu trabalha em um grande escritório de advocacia como digitador. No mesmo local convivem o seu tirano chefe dr. Pilatos (Lavínia Pannunzio), o office-boy Caju (Luaa Gabanini), o jovem carreirista Nepomuceno (Roberta Estrela d´Alva) e o braço direito de Pilatos, espécie de segurança, pau-para-toda-obra Chester (Paulo Picarelli).Um dia, Bartolomeu passa a responder a qualquer ordem ou pedido com a frase "preferia não fazer". Ele pára de trabalhar e mergulha em uma total inércia, detonando as mais diferentes reações nos companheiros de trabalho. "Aquele homem magro e lívido enlouqueceu todo mundo ao seu redor", comenta outro personagem.Em sua concepção, Claudia transportou os personagens de um escritório quase kafkiano para o universo bem real da cultura hip-hop: grafiteiros, dancers, rappers, DJs e MCs integram uma espécie de coro grego, responsável por conduzir o espectador pela trama e comentar o comportamento dos personagens. "Se Deus não tá ligado, não tem puli (baderna)", é um dos versos do canto de resistência do office-boy.O espetáculo tem direção de Georgette Fadel - a mesma que recentemente concebeu o ótimo Um Credor da Fazenda Nacional, baseado na obra do gaúcho Qorpo Santo. O DJ Eugênio Lima, responsável pela criação musical e pelas coreografias - todas as letras das músicas foram criadas por Claudia Schapira -, o MC (mestre-de-cerimônias) Pedro Sérgio e o percurssionista Leandro Feigenblatt conduzem ao vivo a trilha do espetáculo.Os personagens revezam-se por cenários como um escritório, uma igreja e as ruas, onde o elenco recebe o reforço dos dançarinos Pedro Moreno e Monika Bernardes, responsáveis pela preparação corporal das atrizes. "Lancei mão da fábula criada por Melville para falar dos suicidados da sociedade", comenta Claudia."De início, escapo do ângulo existencial do romance para jogar meu zoom sobre o homem urbano, o assalariado médio que se sente obsoleto diante da modernidade." No fim do espetáculo - que termina com uma cena que o elenco espera transformar numa espécie de ritual coletivo -, a diretora retoma a linha existencial do texto original.Para reforçar a ligação com a realidade social, Claudia Schapira criou um personagem inexistente no romance original, o detetive Galhardo, interpretado em sistema de revezamento por todas as atrizes do elenco. "Ele é uma espécie de corifeu", comenta Claudia. "Tanto Bartolomeu como seu chefe Pilatos são personagens negativos", comenta Georgette. Enquanto o primeiro simplesmente desiste, o segundo literalmente "lava as mãos" diante do sistema. "Pilatos é um tirano nas relações humanas do tipo que diz: eu não tenho culpa, não fui eu que criou esse sistema", diz Lavínia, intérprete do personagem. "O mais canalha que já encarnei."Pesquisar e levar ao palco o universo hip-hop tem a significação de um ato político, de busca do correspondente contemporâneo para o teatro engajado dos anos 60 e 70. "Acho que todo mundo quer que o ser humano dê certo", comenta Claudia. Mas como falar de transformação sem cair numa fórmula já ultrapassada? Claudia Schapira foi beber na legitimidade da música e dos versos irados da cultura hip-hop. "O teatro é mistura de linguagens, no palco cabem todos os universos."Lavínia assume a intenção de não só entreter o público, como retomar a idéia de teatro como ato político. "A gente parte do princípio de que um homem melhor é aquele capaz de não se submeter à realidade com a violência que ela pede, aquele capaz de refletir e interagir sobre a realidade."

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