Wilton Junior/AE
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Romance de Editor

Paulo Roberto Pires e outros editores falam sobre lançar livros próprios conhecendo as dificuldades do mercado

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2011 | 00h00

Uma nota na imprensa ajudou a espalhar um burburinho incômodo no meio editorial: o jornalista Paulo Roberto Pires revelaria bastidores do mundo literário no romance Se Um de Nós Dois Morrer (Alfaguara). A experiência de oito anos como editor de livros, na Planeta e depois na Ediouro, de fato legou à ficção de Pires importante know how, mas quem temia indiscrições não precisava se preocupar. Só uma pessoa é descrita na obra como falsa, interesseira e desatenta com questões literárias, e essa pessoa é um editor com as mesmas iniciais do criador do história, PrP.

De resto, a trama é centrada em Théo, escritor fracassado que padece de mal que Pires tanto testemunhou: a obsessão por se destacar no universo literário, ainda que os fatos não corroborem a intenção (leia mais ao lado). "PrP, o editor infame, é uma colagem de procedimentos do mundo editorial de hoje, não só no Brasil, cada vez mais predadores", diz Pires, professor de comunicação da UFRJ e há um ano editor da revista serrote.

Escrito por alguém que conhece os meandros do mercado editorial brasileiro, o romance de Paulo Roberto Pires abre margem para discussão mais ampla sobre lançamentos de ficção nacional, cujas vendas raramente ultrapassam a primeira tiragem (em torno de 3 mil cópias), mesmo numa época em que festivais literários tornam autores conhecidos entre o público.

O que leva um editor, ciente das dificuldades de vender livros num mercado saturado, a publicar seu próprio romance? "Todo escritor é vaidoso", resume Pires, que se reconhece sem drama como alvo da ironia sobre pretensões literárias que aparece no romance. "A única coisa que impede alguém de escrever é a autocrítica. Ela é excelente, porque vacina do patético." No caso dele próprio, a fórmula parece ter funcionado: entre o primeiro romance, Do Amor Ausente (Rocco), e este Se Um de Nós Dois Morrer, foram 11 anos de ideias engavetadas.

Um dos poucos autores brasileiros convidados a participar de mesa na Tenda dos Autores da 9.ª Flip, que começa no dia 6, Marcelo Ferroni também atua nos dois lados do mercado. Ele é editor da Alfaguara e teve seu primeiro romance, Método Prático da Guerrilha, lançado ano passado pela Companhia das Letras. O livro vem sendo elogiado pela crítica e segue invejável carreira internacional, com direitos comprados na Espanha, Itália, Alemanha e em Portugal, mas ainda não chegou aos mil exemplares vendidos no Brasil, segundo as últimas notícias recebidas da editora. "É uma quantidade normal para os padrões de ficção nacional", diz Ferroni, que, imagina-se, terá vendas mais expressivas após a participação na Flip.

Intervenções. Uma vantagem de conhecer o mercado é lidar bem com questões que costumam ferir o ego de escritores. A principal delas, na avaliação de Paulo Roberto Pires e de Marcelo Ferroni, é aceitar sugestões de cortes para a obra. Pires, editor assumidamente "interventor" em obras alheias que lhe caíram nas mãos no passado, diz que sua maior descoberta foi saber que seu livro precisava de edição - esta ficou a cargo Isa Pessoa, diretora editorial da Objetiva.

Ferroni, que teve o livro editado na Companhia das Letras por André Conti, diz que sugestões foram bem-vindas - por exemplo, juntar com outro capítulo um que se resumia a uma frase, o tipo de expediente ao qual muitos autores recorrem sem necessidade. "Outra coisa que a gente aprende como editor é a publicar o livro só quando a obra já está no ponto, e não lançar de qualquer jeito, como ansiedade."

Menos abertura para intervenções alheias deu Marcelo Melo, editor da Livros de Safra, ao decidir lançar seu Eu Não Sei Ter por sua editora. "Queria que saísse pela Companhia, mas Luiz Schwarcz nunca respondeu ao meu e-mail. A dúvida passou a ser se eu mesmo publicava ou não. Bem ou mal, tenho certa reputação como editor, não poderia me queimar lançando um péssimo autor", faz graça. Resolveu bancar a investida, mas assinando com o nome do meio, Marcelo Candido, como forma de "separar o autor do editor". Com lançamento na quinta-feira, na Livraria da Vila da Lorena, o romance sai com a responsabilidade de abrir o selo literário da Livros de Safra, chamado Virgiliae, já que o título que faria isso, o elogiado Um Homem Chamado Lobo, do argentino Oliverio Coelho, atrasou.

A estreia literária fez Melo descobrir que não é fácil a vida de ficcionista. "Numa rede de livrarias, disseram que autor iniciante não fica em destaque porque não vende. Sempre fui parceiro da rede como editor, achei chato nem avaliarem o produto antes de definirem isso." Mais escolado na divulgação de ficção, Paulo Roberto Pires está tranquilo com o lançamento de seu romance - que ocorre hoje, às 18 horas, na Livraria Argumento, no Rio. "A experiência como editor me ensinou a ficar quieto, deixar de ser maluco como todo autor, reclamando que o livro não está em destaque na livraria. Tenho certeza de que a editora está trabalhando nisso."

SE UM DE NÓS DOIS MORRER

Paulo Roberto Pires

Alfaguara, 124 págs., R$ 36,90

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