Roma, cidade que é tudo, menos eterna

Neste ano de 2010, o colapso de alguns edifícios mais antigos levou arqueólogos desanimados a alertar, mais uma vez, sobre a iminência de outras calamidades que ameaçam o patrimônio arquitetônico de Roma, hoje em condições precárias. Por outro lado, a intelectualidade ensandeceu quando foi inaugurado recentemente um pretensioso museu nacional de arte contemporânea, o Maxxi, e houve a ampliação do museu de arte moderna do município, o Macro. Isso aconteceu depois que o prefeito de Roma, Gianni Alemanno, reuniu urbanistas e arquitetos com a finalidade de elaborar uma proposta em vista da Olimpíada de 2020, como incentivo para a modernização da capital da Itália. A arquitetura contemporânea promete agora ser o motor e o símbolo de uma nova identidade criativa para Roma que, se tudo for realizado corretamente, a cidade poderá complementar o seu glorioso passado.

Michael Kimmelman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

"O que Roma quer ser quando crescer?" Foi como colocou recentemente a questão Richard Burdett, um urbanista de Londres com raízes italianas. Ele se referia à situação de Roma num momento crucial de sua história, lutando para seguir em frente, mas ficando para trás. Quando um museu projetado por Richard Meier, um edifício de vidro e mármore para abrigar a Ara Pacis, foi inaugurado há alguns anos, os romanos protestaram. Ocorre que o edifício parece um deselegante mausoléu fascista. O Maxxi, cujo estilo apresenta uma outra série de problemas, foi bem mais apreciado pelo público, atraindo cerca de 74 mil visitantes no primeiro mês de funcionamento, e acelerando os projetos de líderes como Alemanno sobre Roma no século 21.

O problema é que não existe nada que se assemelhe a uma estratégia bem formulada para conferir nova identidade à cidade, apenas uma explosão de fatos criadores de obras arquitetônicas e uma fome nova de algo melhor. As questões que Roma enfrenta não serão resolvidas por alguns projetos de nomes famosos, mas por um esforço maior que permita repensar uma cidade que cresceu rapidamente chegando a 3,7 milhões de habitantes, quase todos afastados do centro histórico. Ou seja: o passado está literalmente desmoronando.

Como estabelecer um equilíbrio entre o velho e o novo? É o famoso dilema. O arquiteto romano Massimiliano Fuksas está concebendo atualmente um imenso centro de congressos numa rodovia construída por Mussolini para ligar o centro e o mar. De um lado do centro, o Museu Luigi Pigorini de Pré-Historia e Etnografia, uma glória dos anos 30, em calcário, vitrais, luz e ar, é o exemplo clássico das modernas aspirações de uma época passada. Do outro lado, novos blocos de apartamentos estão sendo projetados por Renzo Piano, cujo complexo do Parque da Música para as artes cênicas, inofensivo e pragmático, foi inaugurado há poucos anos imediatamente fora do centro da cidade, para satisfação de todos.

Em contraposição, a área onde se ergue o Pigorini nunca decolou como se pretendera. A maioria dos romanos não visita o museu de etnografia desde a escola primária, embora eles se mostrem saudosos à sua lembrança. O edifício de Fuksas parece mais um brinquedo gigantesco que se ergue ainda hoje no meio do nada.

Outro exemplo de que alguns dos melhores monumentos estão se esboroando: na Domus Aurea, villa dourada que Nero construiu perto do Coliseu, uma galeria com arcos ruiu poucos meses atrás. Roma moderna, Roma antiga. Roberto Cecchi, encarregado da supervisão dos sítios arqueológicos mais preciosos, declara: "Precisamos começar a pensar para frente, não apenas responder às crises depois que elas acontecem." Mas quem sabe? Esta é Roma, em que certas coisas se eternizam. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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