Rogério Sganzerla uma obra para o milênio

É a opinião do crítico e cineasta Bill Krohn, que estará em São Paulo para debater o legado do brasileiro durante evento do Itaú Cultural

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

O mérito da mostra está em programar tudo o que saiu da cabeça cinematográfica de Rogério, inclusive trechos disponíveis da "obra perdida" Carnaval na Lama (leia abaixo). O que, seis anos depois de sua morte, vai permitir uma reavaliação do artista, que poderá ser ainda mais densa pelo nível dos debates programados. Nomes como Julio Bressane, Bill Krohn, Helena Ignez e Ismail Xavier, entre outros, estarão por aqui para discutir uma obra multifacetada e muitas vezes enigmática.

Por exemplo, será interessante observar como a obra de Rogério fascina as gerações mais jovens, que não eram sequer nascidas quando ele surgia com O Bandido da Luz Vermelha e Mulher de Todos. Será apenas efeito do eterno ar de rebeldia, que sempre seduz a quem é jovem (como, em outro âmbito, o Che)? Ou refere-se à maneira como Rogério incorporou os elementos pop do seu tempo numa espécie de X-Tudo cinematográfico como é O Bandido da Luz Vermelha, paródia de filme noir e comédia, faroeste do Terceiro Mundo, como ele o definia, uma maneira de falar do sufoco apelando não para a consciência da alienação, ou outros babados marxistas, mas para o escracho puro e simples? Mistério. Ou o segredo estaria na concepção rítmica dos seus filmes, da maneira como organiza os planos e os monta, ele que sempre foi cinéfilo, antes de ser crítico e cineasta? Porque há sempre algo de muito ritmado nos filmes desse diretor que gostava de citar a definição de Abel Gance: "O cinema é a música da luz."

De qualquer forma, Joel Pizzini pega carona na definição do cineasta e ex-crítico dos Cahiers du Cinéma, Bill Krohn, para quem "o cinema de Rogério Sganzerla é uma obra para o século 21". Quer dizer, uma obra para o futuro, pois antes que se falasse em pós-modernismo e outros ismos, ela já imergia na geleia geral contemporânea e incorporava diversas linguagem à do cinema, como o rádio, os quadrinhos, a música popular, etc. Ao mesmo tempo, bebia no que de melhor a arte cinematográfica oferecia, Orson Welles acima de tudo, mas não o colocando em altar em separado, mas fazendo-o conviver com outras referências, de Godard a José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Tudo era material para entrar nessa dança refinada do cinema, do criminoso do momento (João Acácio, o Luz Vermelha da vida real) a um comediante de TV, Pagano Sobrinho, para interpretar um político corrupto.

Rogério Sganzerla era o talentoso cozinheiro de todas essas incongruências. Sempre achou o ponto em suas receitas? Eis aí o outro "x" do problema, para falar como seu querido Noel Rosa. Há quem ache que tudo é bom e esse é um dos problemas da noção de "autor". Se você ama o autor, ama em conjunto toda a sua obra, como se tudo se nivelasse por cima. E sabemos que nem sempre é assim, que alguns momentos geniais podem se alternar com outros menos inspirados. Ver essa filmografia em perspectiva é rara oportunidade para separar o que pode ser mesmo considerado como obra para o século 21 do que permanece, no máximo, como precioso documento de época.

QUEM É ROGÉRIO SGANZERLA

CINEASTA

Nasceu em 4 de maio de 1946 em Joaçaba (SC). Com O Bandido da Luz Vermelha (1968) torna-se expoente do cinema experimental brasileiro. Seu último filme é O Signo do Caos, de 2003. Morre de câncer no ano seguinte.

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