Rodrigo Naves

As esculturas de porcelana têm um aspecto orgânico indiscutível. A irregularidade de sua superfície e de seus contornos indica que em seu interior ocorrem certos metabolismos, dos quais elas são apenas expressão. Pelos orifícios das peças vemos que elas contêm uma face oculta, que sem dúvida guarda uma vida ativa e misteriosa. De algum modo, interior e exterior se comunicam, embora não saibamos bem como. Mas tão logo nossa vista se detém mais demoradamente sobre essas superfícies, vemos que nada disso faz muito sentido. O esmalte que as recobre adquiriu uma aparência vítrea ao ser aquecido, que impede supor aí qualquer permeabilidade. Assim, aquelas regiões porosas, vitais, revelam-se puramente ilusórias, e passa a prevalecer a rigidez unívoca de um material asséptico, extremamente artificial. E então interior e exterior perdem o contato, tornam-se regiões autônomas, indiferentes ao destino um do outro. O que se mostrava vivo adquire a aparência de um produto industrializado: algo entre uma pia e um vaso snitário. Talvez um bibelô de louça que um Oldenburg mais perverso resolvesse deformar. (...)

Agencia Estado,

08 de novembro de 2000 | 18h43

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.