Jim Urquhart/Reuters
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Rodrigo García compartilha os segredos da despedida de García Márquez

O cineasta Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez e Mercedes Marcha, apresenta um retrato honesto e comovente dos últimos dias de seus pais em 'Gabo e Mercedes: um adeus'

Berenice Bautista, AP

07 de setembro de 2021 | 10h00

CIDADE DO MÉXICO - O cineasta Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez e Mercedes Barcha, apresenta um retrato honesto e comovente dos últimos dias de seus pais em Gabo e Mercedes: Um Adeus. A crônica, publicada em espanhol pela Penguin Random House, é uma espécie de fechamento emocional que os leitores de García Márquez podem não ter pedido, mas vão achar que precisavam. Se a morte de um pai é sempre difícil, a morte de um escritor ganhador do Prêmio Nobel envolve preparativos e um número impressionante de pessoas, como García deixa claro.

“Li o máximo de versões que pude, cada jornal enfatizando diferentes aspectos de sua vida ou realizações. Mais uma vez, eu luto para reconciliar esta pessoa na imprensa com aquela com quem passei as últimas semanas, doente, morrendo, e que finalmente se transformou em cinzas guardadas em uma caixa. E com o pai de minha infância, aquele que eventualmente se tornou meu filho e de meu irmão Gonzalo”, escreve García. 

O autor chegou a sentir um pouco de culpa, pois não queria escrever algo que traísse a vida de sua família. Inicialmente, ele não tinha certeza se iria publicá-lo ou como ficaria o resultado final. Ele também não se sentia à vontade para publicar enquanto sua mãe estivesse viva e poderia ler a obra. “Não porque houvesse alguma fofoca lá, mas, em última instância, trata-se de uma história pessoal”, disse ele.

Foi somente quando sua mãe morreu no ano passado, de problemas respiratórios provocados pelo tabagismo, que ele percebeu o que estava interessado em contar: o adeus de ambos os pais, pois sua família tinha sido, junto com seu irmão Gonzalo, um "Clube dos Quatro". O restante de seus parentes vivia na Colômbia: "É um pouco a história de como morreram os dois fundadores do Club de los Cuatro", disse García. “Eu não queria fazer um livro sobre a morte do famoso pai, mas queria escrever algo sobre a despedida de ambos". 

García Márquez casou-se com Barcha em 1958 e, ao contrário de outros autores de sua geração, como Octavio Paz, Carlos Fuentes ou Mario Vargas Llosa, ele ficou com sua primeira esposa. García observou que sua mãe "necessitava ter força" para a vida que levavam, mas conseguiu florescer de uma menina colombiana provinciana nascida na década de 1930 até se tornar alguém que se relacionava com naturalidade com presidentes e outras figuras internacionais, como se viu no funeral do autor.

“O mundo de meu pai era complicado: sucesso, fama, viagens e responsabilidades. E Mercedes foi em grande parte a controladora de tudo isso”, disse Rodrigo. “Ele viajou muito... A jornada foi enorme e Mercedes até se sentia confortável em contato com pessoas mundialmente conhecidas”.

Em sua história, Rodrigo também discute a perda de memória que García Márquez sofreu anos antes de morrer, em 17 de abril de 2014, o que lhe causou muita dor, pois sabia que estava ficando sem a "matéria-prima" de suas histórias: “Meu pai tinha plena consciência de que sua memória estava se apagando. O preço de ver uma pessoa naquele estado de ansiedade e ter que tolerar suas intermináveis repetições indefinidamente é enorme”, escreve, no livro. “Já tivemos uma espécie de pré-despedida com sua perda de memória. Ao final, felizmente, ele já não sofria mais com a consciência de perda (de memória).” 

Mas, se algo estava claro para García Márquez, era que ele queria passar seus últimos dias no México, país para o qual emigrou na década de 1960 e onde escreveu sua obra-prima Cem Anos de Solidão.

“Ele sempre gostou do México, onde se sentiu muito confortável. O México estava mais calmo que a Colômbia”, disse Rodrigo. “No final, ele estava onde se sentia bem, que era a casa no México, onde passava mais tempo.” 

Como em qualquer funeral latino-americano, o humor do livro não poderia estar ausente. Há momentos em que Rodrigo lembra os acontecimentos de seu pai e observa com leveza esses últimos momentos de sua vida compartilhados com a família e amigos. “É definitivamente muito latino-americano pensar que vai ser enterrado ou que vai ficar reduzido a um quilo e meio de cinzas, são coisas tão absurdas que você tem que rir um pouco, não se pode levar tudo a sério.

Rodrigo, que desenvolveu uma carreira como cineasta em Los Angeles com filmes como Four Good Days (2020) e Questão de Vida (2005), inclui algumas fotos de família: do casamento de seus pais, o funeral, e uma bela imagem de uma oferenda do Dia dos Mortos dedicada a seus pais. 

O autor também gravou a versão audiobook de Gabo y Mercedes. Rodrigo conta que seu pai lhe disse que, fosse o que escrevesse, tinha que ser bom. Ao produzir o livro, disse ele, estava ciente de que não seria difícil publicá-lo porque se tratava de García Márquez, mas que havia se esforçado para torná-lo o melhor possível, ao mesmo tempo em que reconcilia a figura pública com a paterna.

“Esse foi um processo que durou toda a vida, talvez mais ainda à medida em que ele se tornava mais famoso”, disse. “Eram pessoas simples, mas tinham que desempenhar diferentes papéis.”

Agora, como guardião do legado de seu pai junto com seu irmão Gonzalo, Rodrigo não se sente sobrecarregado. “O nome e o trabalho de Gabo estão definitivamente estabelecidos”, observa. “Há muito ainda que crescer, encontrando novas etapas. Agora, um de seus maiores e mais poderosos grupos de leitores está na China.” 

Outro caminho para onde o universo de García Márquez irá trilhar é o campo do streaming. Uma adaptação de Cem Anos de Solidão deve ser adaptada pela Netflix como minissérie – atualmente está em pré-produção, e ainda não sem data de lançamento.

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