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Rodrigo Fresán flerta com a ficção científica

Autor, referência no mundo das letras hispânicas, fala de ‘O Fundo do Céu’

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2014 | 19h41

Rodrigo Fresán abre o posfácio de O Fundo do Céu, publicado nesta semana pela Cosac Naify, com uma explicação categórica: "Este não é um romance de ficção científica. Este – foi e será – um romance com ficção científica". A justificativa do argentino, um tanto irônica, quase não foi necessária.

Herdeiro direto de Adolfo Bioy Casares e de Jorge Luis Borges, mas também de Kurt Vonnegut, Philip K. Dick e do Stanley Kubrick de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Fresán propõe aqui uma leitura sensível da passagem do tempo e dos desencontros da vida, tudo isso recheado de muita ficção científica, literatura e, sim, amor.

"É um livro um pouco paradoxal, porque o tema e as coordenadas são da ficção científica, mas todo ele se passa num passado já terminado", diz, bem-humorado, por telefone ao Estado, de sua casa em Barcelona. "A ideia era que a ficção científica fosse uma espécie de perfume."

Os três narradores do romance, cada um de uma parte do livro, estão ou foram muito ligados ao gênero, que os uniu e acabou sendo sua ruína: em poucas palavras, O Fundo do Céu trata de um triângulo amoroso impossível, que a passagem do tempo não pôde apagar.

O leitor pode achar surpreendente que os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e a Guerra do Iraque estejam presentes de maneira definitiva no romance desse portenho que mora em Barcelona. Mas Fresán não acha nada estranho. "Segundo o ditado de Borges: ‘Enquanto temos que suportar a fatalidade de sermos argentinos, pelo menos nos fica o consolo de sermos universais’", diz. "Nesse sentido, é engraçado pensar que talvez o maior romance norte-americano tenha sido escrito por um russo, e ele é Lolita (de Vladimir Nabokov)", compara.

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Fresán não escreve para fechar fronteiras, mas, ao contrário, justamente para não ter que se fixar. "Cada livro me dá esse poder", diz. Os personagens de O Fundo do Céu, igualmente, parecem não ter encontrado um lugar definitivo: "Eu, agora, sou outro. Mudei. Estou longe de casa, certo. E, de algum modo, estou em outro planeta. Mas trata-se de um outro planeta que está neste planeta. Aqui estou eu", diz um dos narradores, referindo-se tanto ao espaço físico que ocupa (o deserto) quanto ao lugar incerto no mundo das ideias, real e trágico, da guerra de que participa.

O conflito representado em O Fundo do Céu tem pouco de ficção: os desertos do Iraque, a loucura dos soldados norte-americanos e dos radicais xiitas, tudo isso é real. Mas esse narrador, soldado, apaixonado por ficção científica, acha difícil acreditar: "Agora o homem é o extraterrestre do homem, e talvez tudo ficasse mais claro se assumíssemos essas ridículas excursões como viagens a outros planetas, como se enfrentássemos alienígenas, e não estrangeiros".

Para o escritor, pareceu oportuno ainda discutir essas questões inacabadas até hoje (o romance foi publicado em 2009). "Tratar de algo impossível, ou supostamente impossível, como essa questão, é um dos recursos clássicos da ficção científica", diz.

O Fundo do Céu, porém, vai bem além da guerra. Lembra A Invenção de Morel, de Bioy Casares, e sua máquina absurda, ao tratar de personagens que, mesmo se vendo o tempo todo, não podem se encontrar. Há uma impossibilidade entre os três personagens principais – Isaac Goldman, Ezra Leventhal e uma misteriosa terceira parte, feminina – que os mantêm apartados. Essa aura, às vezes quase incompreensível, é o substrato do qual se alimenta o romance, escrito numa linguagem delicada e traduzida aqui pelo gaúcho Antônio Xerxenesky.

A ficção de Fresán passeia pelos gêneros, às vezes beirando o absurdo (além da ficção científica, além do realismo mágico), chega a ser engraçada: ‘"Meu nome é Tenente George Clooney’, fala o oficial. O homem que afirma se chamar Tenente George Clooney não é, claro, George Clooney", diz, a certa altura, um dos narradores. E o próprio Fresán explica no volume: "Este foi um romance no qual me preocupei especialmente em encontrar um determinado ‘idioma’ para contá-lo, sabendo que, de modo geral, na ficção científica, não importa tanto o estilo (exceto nas honrosas exceções de Philip K. Dick e J. G. Ballard e alguns outros)". A prática é comum nos seus livros, em que os posfácios são, segundo o próprio, mais do que explicações, mapas de leituras complementares, um reconhecimento agradecido de escritores e livros que o influenciaram, uma luz que Fresán diz gostar de jogar sobre si próprio,

Porque é a "necessidade férrea" da ficção científica em explicar os mínimos detalhes – como não pensar no 2001, de Arthur C. Clarke, mil vezes mais didático do que o clássico de Kubrick? – que irrita Fresán. "No planeta em que se passa a trama de O Fundo do Céu, os foguetes e ônibus espaciais não decolam nas planícies lisas de um lugar chamado cabo Kennedy, mas sim das sinuosas curvas de Mulholland Drive", explica, referindo-se à base de lançamentos da NASA na Flórida, e à rua no norte de Los Angeles que também serviu a David Lynch (A Cidade dos Sonhos, de 2002, é, originalmente, Mulholland Dr.).

2001: Uma Odisseia no Espaço também ocupa um lugar especial no romance, apesar de todas as filiações literárias do livro. Algumas das páginas mais belas se dedicam às imagens e acontecimentos do filme. O narrador da primeira parte, Goldman, um escritor de ficção científica mediano que agora escreve para relembrar, fala sobre a primeira visita a 2001, um milagre excepcional, "aquilo que alterava para sempre a disciplina rigorosa e paradoxal de um gênero que se dizia livre e sem fronteiras".

Quando Philip K. Dick disse, em sua última entrevista, semanas antes da estreia de Blade Runner, que "o mundo já chegou na ficção científica", Fresán, em segredo, concordou. "Creio que já vivemos no futuro", tateia o argentino, de 1963. "Gosto muito de uma frase de William Gibson: ‘o futuro já está aqui, mas ainda está mal distribuído’", diz, animado. O livro chega às livrarias no dia 15 de maio. Isso, é claro, se nenhum fim do mundo atingir este planeta.

 

 

Muito além das estrelas, gênero ainda luta por se afirmar

Um caçador de androides (robôs feitos para que se pareçam com humanos) que reflete sobre a vida, os relacionamentos e o tempo enquanto anda por ruas de uma San Francisco pós-guerra mundial em um ponto futuro do século 21. Pode soar inverossímil, e é o substrato de uma das obras literárias mais importantes de Philip K. Dick, considerado por muitos um dos grandes escritores norte-americanos do século 20. O romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, que inspirou o filme Blade Runner, de Ridley Scott, foi republicado pela Aleph com nova tradução de Ronaldo Bressane - em edições anteriores, a obra de 1968 levava o título O Caçador de Androides.

A Aleph é uma das editoras brasileiras que mais se dedica à ficção científica. E o publisher Adriano Fromer fala entusiasmado sobre o gênero. "Hollywood não ajuda, mas a ficção científica, especialmente a literária, tem um potencial muito grande para leitores que gostam dos gêneros tradicionais, pois consegue expandir possibilidades: o tempo, o espaço (para outros planetas) e até raças de indivíduos que podem criar tipos diferentes de relações", exemplifica.

Com o livro de Dick na cabeça, é difícil discordar. Ali, há tramas das boas, reflexão, pensamentos, ideias originais e discussões incrivelmente atuais como o aborto. Há, enfim, literatura.

"Ter sido reconhecido apenas depois de sua morte é uma grande injustiça com Dick", diz outro grande fã do americano, o escritor e tradutor Antônio Xerxenesky gaúcho. "Muito do que ele escrevia, mesmo se passando em algum futuro, é referente a problemas pessoais, que ele passava com a mulher, por exemplo."

Adriano Fromer separa o leitor do gênero em dois grupos: os fãs do sci-fi, que leem e consomem tudo relacionado ao gênero. E o que ele chama de "não fã", que é a pessoa que não está acostumada com os universos, ou planetas, paralelos. "Desde que a Aleph retomou a publicação dos clássicos, entre 2003 e 2004, nossa ideia tem sido de formar leitores de ficção científica, e nisso os clássicos, como William Gibson, Isaac Asimov e Philip K. Dick são fundamentais", explica. A escolha pelos clássicos foi antes uma necessidade do que uma escolha.

Outro aspecto interessante do gênero são as "descobertas" quase premonitórias. Em Neuromancer, por exemplo, William Gibson descreve a internet, esse ciberespaço e os "cowboys do espaço" com precisão. Em 1984. "Antes de considerar a ficção científica algo que prevê o futuro, acho que é uma fonte de inspiração para novas empreitadas, inclusive no mundo dos negócios", diz Fromer.

Por outro lado, também é possível pensar - ao menos no primeiro momento - no gênero como um gênero pessimista. "Porém, a informação que chega sobre o gênero é limitada", rebate Fromer. "Matrix, 2001, Laranja Mecânica e muitos outros são, de fato, distópicos, pessimistas." Mas há escritos do gênero que rompem essa barreira. Fromer indica Uma Princesa de Marte, de Edgard Rice Burroughs, que é um romance aventuresco, traz uma história de amor, mas se passa em Marte.

Xerxenesky propõe outra leitura sobre a questão: "A ficção científica projeta o futuro, mas sempre com base no presente. Aí a grande maioria é pessimista porque o presente é pessimista".

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