Rodrigo Fresán e a complexidade da literatura infantil

O argentino Rodrigo Fresán é umafigura particular. Por não ter completado o curso primário, nãose habilitou a nenhuma profissão que exija diploma, embora tenhaaprendido a ler e escrever. Assim, quando comunicou ao pai, umpublicitário, que se dedicaria à carreira de escritor, única quevisualizou como possível diante de suas habilidades, recebeu umsuspiro como resposta. Hoje, aos 44 anos, Fresán é apontado comoum dos mais inovadores romancistas contemporâneos do idiomaespanhol. "E meu pai acreditava que escritores morriam de fome",diverte-se ele, que participa domingo da mesa De Macondo aMcCondo, ao lado do mexicano Ignacio Padilha, no último dia daFlip. Fresán é autor de Jardins de Kensington (Conrad),romance que já foi traduzido para 14 países. Trata-se dahistória de um conturbado autor infantil cuja vida se misturacom a de J. M. Barrie, criador de Peter Pan. Curiosamente, oescritor argentino defende a tese de que os livros infantis nãosão adequados às crianças. "Os clássicos, principalmente, trazemfatos sombrios, angustiantes, que não julgo apropriados", afirma. "Não sei se deixaria meu filho ler Peter Pan." Ele, naverdade, defende a quebra da divisão entre literatura paracrianças e para adultos. "Se for adequadamente educado, umgaroto de cinco anos já tem capacidade para ler qualquer coisa.Assim, é possível ler romances destinados a adultos, desde, éclaro, que se cuide da seleção de temas." Fresán acredita na grande habilidade de interpretaçãoque um ser humano já dispõe nessa idade. É o que pode explicar,por exemplo, o enorme sucesso da saga Harry Potter, quecolocou em um patamar superior a literatura dedicada aos jovens."O fato, porém, de se classificar esse tipo de escrita fez comque a editora inglesa lançasse os livros com duas capas: umaespecialmente para as crianças e outra para os adultos que,embora adorassem a história, tinham vergonha de serem flagradosLendo Harry Potter no metrô", ironiza. A infância e a morte são temas recorrentes em sualiteratura. Vivendo na Espanha desde o final da década de 1990,Fresán conta que não sentiu os efeitos da crise econômicaargentina. "Para não dizer que passei totalmente ao largo doproblema, apenas meu salário como colunista do jornal Página12 foi reduzido a um quarto, durante um tempo."Mais argentinos A busca pela distância, aliás, é uma característica daliteratura argentina, no entender de Fresán. "E, curiosamente,quanto mais distantes buscamos estar, mais argentinos somos",define ele, lembrando do célebre caso de Jorge Luis Borges, umainstituição nacional e mundial que, embora anglófilo, é apontadocomo um dos mais característicos escritores da Argentina. "A solução pela fuga pode ser explicada por sermos umpovo com uma história ainda muito recente: estamos apenas háduas ou três gerações dos primeiros imigrantes que chegaram àArgentina. E tampouco há vestígios muito fortes dos indígenas emnossa formação. Assim, como bem definiu Borges, os argentinossão europeus no exílio", comenta Fresán que, atualmente, sededica a traduzir a ficção de John Cheever e as letras de BobDylan para o espanhol. O trabalho jornalístico, aliás, é bem diferenciado doliterário por um fato peculiar: Fresán dispõe de um computadorem que escreve suas colunas para o Página 12 e outro exclusivopara suas ficções. Ou seja, apesar do rebuscado gosto literário- entre os brasileiros, admira muito Machado de Assis ("De ondesurgiu esse escritor tão fascinante?"), Rubem Fonseca, MiltonHatoum e Clarice Lispector -, trata-se, de fato, de um homemsingular.

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