Rodolfo Konder lança coletânea de crônicas

A menos de dois meses do fim da sua atuação na Secretaria de Cultura Municipal, o jornalista Rodolfo Konder lança o livro Hóspede da Solidão (Global, 192 páginas R$ 22).Trata-se de uma reunião de crônicas, a maioria delas já publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo. Esse é o 12.º livro de Konder. O anterior, A Palavra e o Sonho, foi lançado no ano passado, também pela Global."Tenho um carinho especial por esse novo livro", afirma o autor, que redispôs os textos - em que a memória cumpre um papel fundamental - em ordem cronológica. Assim, um texto publicado inicialmente em fevereiro de 2000 (como é o caso de Na Costa do Pacífico, que trata de uma passagem por Acapulco) pode anteceder um editado em setembro de 1999 (Convulsões e Agonia, ainda sobre o exílio mexicano em 1964).O título do livro é também o mesmo da última crônica, que começa desta forma: "Deitado na penumbra, olho o teto do quarto. As luzes dos carros lá de fora entram pela janela e se projetam nas tábuas de madeira. Sinto a mesma angústia, a mesma solitária angústia que sentia nas madrugadas de Ille des Soeurs, durante o prolongado inverno canadense, quando ouvia o apito abafado dos navios que avançavam com dificuldade pelas águas geladas do Rio São Lourenço. Onde estou agora?"Experiências - Os dois anos no Canadá, bem como as viagens e outros acontecimentos por que passou o autor dão o tom do livro, que, para Konder, pode ser lido como um romance de suas experiências."Aos 62 anos, o corpo já dá seus sinais de fadiga", diz ele. "Mas também estou num momento em que a vida já ensinou muitas coisas; tive uma trajetória particularmente movimentada, fui preso, perseguido, torturado, o que poderia ter-me transformado numa pessoa ressentida, mas não foi isso que aconteceu", avalia.Antes de ser secretário das gestões de Paulo Maluf e Celso Pitta, Konder teve uma trajetória política ligada à esquerda.Foi militante do Partido Comunista Brasileiro e teve de se exilar durante o regime militar. Com a redemocratização, atuou em grupos de defesa de direitos humanos - chegou a presidir a seção brasileira da Anistia Internacional (1989- 1990).Em 1993, convidado por Maluf, assumiu o cargo de secretário municipal, em que foi mantido por Pitta.Depois de oito anos à frente da secretaria, Konder, eleitor de Maluf na última disputa pela prefeitura ("Porque ele foi muito correto comigo nos quatro anos da sua gestão"), afirma que manteve sua posição de independência em relação aos dois prefeitos a quem esteve subordinado."Não me filiei a nenhum partido depois que deixei o Partido Comunista; minha gestão foi suprapartidária."Distanciamento - O livro, no entanto, não traz lembranças à frente da secretaria. "Acho que, eticamente, seria condenável; acho que, futuramente, talvez eu possa falar com mais distanciamento."Segundo Konder, a experiência diante da secretaria também lhe ofereceu fatos curiosos, que poderiam tornar-se assuntos de crônicas, como o de um ascensorista, o único do prédio, afastado justamente por sofrer de claustrofobia.Esse livro, diz ainda o jornalista Konder, traz a marca de sua preocupação com a forma. "Antigamente, achava o conteúdo mais importante; hoje, considero que, mesmo que você tenha algo relevante a dizer, só vai ser ouvido se utilizar uma forma interessante." Hóspede da Solidão seria, portanto, resultado dessas preocupações."Estou cada vez mais preocupado com a qualidade literária do que escrevo", afirma Rodolfo Konder.

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