Roda viva, agora mais cordial

Em clima mais intimista e pouco diálogo com público, nova safra da atração recebe Eike Batista

Crítica 1: André Laurentino, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2010 | 00h00

 

 

Se antes o clima chegava a intimidar o convidado, agora está mais para intimista. Saem os inquisidores olhando de cima para baixo o inquirido, e entram a mirada de igual para igual e a nova mesa em forma de letra C, de conversa. O tom esteve mais para uma cordial entrevista do que para a chamada oral que a antiga bancada sugeria.

Estamos falando apenas do primeiro Roda Viva nova safra. Sempre é cedo para vaticínios. Os jornalistas fixos, por exemplo, não pareceram fixos. Eram novidade assim como os demais do elenco. Só a partir do terceiro ou quarto programa é que, com a repetição de três nomes no pequeno grupo de cinco, sentiremos a real dinâmica desta ideia (por ora, é mais uma ideia do que um resultado). Noite de estreia é assim: não sabemos se o que aconteceu daquela vez acontecerá do mesmo modo nas seguintes.

Tive dó do Caruso, que dispôs da nuca de Eike Batista por quase todo o tempo. Sem poder ver seu modelo ao vivo, teve que desenhar recorrendo ao monitor e à memória. Lucro para os jornalistas, que estavam de frente para o artista e apareceram muito mais nas charges (como assim: alguém conseguiu lucrar mais do que Eike Batista? Nesta segunda-feira, sim).

Por falar em nuca, senti falta das perguntas vindas das costas do entrevistado, que antes girava como uma metralhadora às avessas. As perguntas do público também fizeram falta. Na era do diálogo virtual e incessante, é estranho ver a vida fora do espaço e do tempo. Material para Twitter é como a dobrada à moda do Porto, de Fernando Pessoa: nunca se come fria. Além disso, sempre é bom ter um "fulano de tal, de Mossoró" para perguntar qualquer absurdo sem causar constrangimentos. O público pode alfinetar, cutucar, acurralar e até ser indiscreto. Pois está sempre protegido pelo anonimato, mesmo quando se identifica. O público pode ter uma agenda aberta, ao passo que um jornalista precisa de muitas palavras para tentar escondê-la. Ou você acha que meu amigo de Mossoró não ia querer saber detalhes da Luma de Oliveira?

Aflições. Uma vez que não há mais espaço para perguntas da plateia, o fato de o Roda Viva ser gravado acaba influindo pouco no resultado da partida. Mas, como no futebol, ao vivo é melhor: é trapézio sem rede, desenhar sem borracha. Um pouco de adrenalina não faz mal a ninguém. Notei que, mesmo com a nova possibilidade de edição do material gravado, deixaram vazar a imagem de uma pessoa nos bastidores. Ela acenava desesperadamente para a Marília Gabriela. Fazia mímica de TV, por certo dizendo que o tempo estourou. É o tipo de falha que a edição resolve sem prejuízo da verdade. Mesmo assim, vimos a produtora aflita, gesticulando como esses homens de pista de aeroporto, que ajudam o piloto a estacionar um Boeing.

O novo Roda Viva decolou bem. Um tanto ameno, mas bem. É até aqui um dos melhores programas de entrevista da televisão brasileira, senão o melhor. Vamos ver o que acontece no curso do voo.

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