Collection of The Brooklyn Museum/Divulgação
Collection of The Brooklyn Museum/Divulgação

Rockwell: o universo inteiro cabe em sua obra

Em NY, Behind the Camera reúne 20 mil fotografias usadas pelo pintor como estudo para ilustrações

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

Norman Rockwell conquistou plenos poderes artísticos após superar a culpa. No fim dos anos 1930, ele adotou de vez a fotografia como o guia principal de sua pintura. Apesar da vergonha e do risco de ser tratado como artista menor, como se o seu trabalho pictórico fosse mera reprodução das imagens de fotógrafos, o pintor e ilustrador norte-americano soube aproveitar as vantagens da técnica fotográfica. Ele recriou em cenas naturalistas detalhes de luz, formas e tons perdidos facilmente no contato efêmero com um modelo vivo. Esse segredo é relevado pela primeira vez em Norman Rockwell: Behind the Camera, em cartaz no Brooklyn Museum até 10 de abril.

Organizada pelo Norman Rockwell Museum, com sede em Stockbridge, Massachusetts, a exposição resulta do projeto de digitalização e preservação de quase 20 mil fotografias usadas pelo pintor como estudos para a realização de sua obra. A criação final de Rockwell era exibida nas capas do periódico Saturday Evening Post, nas quais os norte-americanos se viam orgulhosamente como uma nação de méritos exemplares. Ele trabalhou durante 47 anos para o Post; foi autor de 323 capas.

Dentro do estúdio fotográfico, Rockwell atuava como um diretor detalhista das composições dos quadros. Às vezes relacionava todos os elementos na mesma cena, às vezes combinava depois os objetos e pessoas fotografados em arranjos separados. O primeiro é o caso de Girl at the Mirror, fotografia de Gene Pelham tirada em 1954 e utilizada como base para a capa de 6 de março do mesmo ano do Post.       

 

 

 

 

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O segundo exemplo é The Tattoo Artist, ilustração feita na 2.ª Guerra Mundial que, na mesma cena, mostra o tatuador e o marinheiro sendo tatuado, apesar de ambos terem sido fotografados originalmente em situações diversas. Essas imagens feitas por Pelham se metamorfosearam na ilustração de capa de Rockwell para o Post de 4 de março de 1944. A justaposição proposta por Behind the Camera revela a invenção pelo artista de um mundo paralelo, entendido como um espelho da sociedade americana ideal.

Norman Rockwell trabalhou com diversos fotógrafos. E teve um trio preferido - Gene Pelham, Bill Scovill e Louie Lamone, que sempre produziam imagens em preto e branco. A ausência de cores era libertadora. "Se um modelo está usando um suéter vermelho, eu tenho de pintá-lo vermelho - eu não poderia fazê-lo ser verde. Mas quando trabalho com fotografias eu me sinto capaz de recriar por vários caminhos", dizia o ilustrador.

Virtuosismo. No começo da carreira, Rockwell empregou modelos profissionais, mas percebeu que inibiam a espontaneidade da cena e a naturalidade do seu estilo de pintura. Quando se entregou à foto, passou a convidar para o estúdio amigos, parentes e vizinhos. Se não houvesse os objetos ou o figurino necessários para a composição da cena, ele saía para comprá-los, alugá-los ou tomá-los emprestados. Não importava se fosse um detalhe à primeira vista insignificante, como uma xícara de café ou uma escova de cabelo. O virtuosismo era tamanho que ele viajava para ver de perto a paisagem de um lugar desconhecido por ele e abordado pela reportagem da revista. As locações tinham de ser observadas ao vivo e em cores.

Depois de quase 50 anos no Saturday Evening Post, Rockwell passou a cooperar com a revista LOOK, na qual ficou quase uma década. Considerado pela crítica como autor de uma perspectiva patriota e por vezes ingênua sobre os EUA, Rockwell chegou aos anos 1960 com uma produção que refletia preocupações com a luta pelos direitos civis, o combate dos EUA à pobreza e a exploração do espaço.

Publicada pela LOOK de maio de 1965 e baseada em fotografia de Louie Lamone, New Kids in the Neighborhood aborda a mudança dos negros para os subúrbios dos brancos. Rockwell criou uma pintura na qual as crianças em frente do caminhão de mudança se encaram com estranhamento. O gato na mão da menina negra e o cão ao pé dos garotos brancos sugerem a dificuldade de conciliação.

O método de criação de Rockwell permaneceu na nova revista. Tanto trabalho para um meio tão passageiro como a imprensa tinha um alvo ambicioso: os milhões de leitores que captaram universos inteiros numa única ilustração. "Eu adoro contar histórias em imagens, essa é a minha prioridade", ele dizia. Ao cumprir a sina do artista que inventa mentiras para mostrar faces da verdade, Norman Rockwell precisou de cenas orquestradas para narrar coisas tão complexas quanto estar vivo.

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