Rock'N'Roll galês, sem frescura e com tensão

Vocalista do Stereophonics fala sobre a primeira turnê pela América do Sul

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

A voz rouca metálica de Kelly Jones vibrando à frente da sua banda Stereophonics é uma daquelas boas experiências do rock"n"roll: simples, objetiva, cheia de tensão e de luz e sombras alternadas. A banda do País de Gales, formada em 1996, chega pela primeira vez ao Brasil no meio de uma enxurrada de shows internacionais - pena, porque quem não conhece o grupo pode pensar que é só mais uma bandinha britânica, e é uma bandaça.

Os galeses fazem show único da turnê Keep Calm and Carry On no Citibank Hall, dia 18. Em 14 anos de carreira, a banda fez o mundo com alguns hits (Dakota, Maybe Tomorrow, Traffic), mas não ao ponto de se tornar gigante. Isso é bom. Toca para 30, 50 mil pessoas na Europa, mas a reação aqui é uma incógnita. "É maravilhoso ver que é possível viver se divertindo com o testemunho dos seus sentimentos sendo reconhecidos por pessoas em outros países", disse Jones, líder do grupo, em entrevista ao Estado por telefone. Ele falou sobre as expectativas na primeira turnê latino-americana (além do Brasil, tocam na Argentina, Peru e Chile).

Ouvindo você cantar, parece que leva a voz a um limite, a voz parece sofrer -

o que magnetiza quem ouve. É mesmo algo

sofrido?

Nunca ouço a mim mesmo quando estou cantando. Mas certamente é só uma impressão, minha voz é meu mais forte instrumento, e a trato bem. Não forço, e sempre dou longos períodos de descanso. Não é algo com que se preocupar. Sei que a voz de um frontman, combinada com os talentos dos músicos, é que dá um som único à banda. Agradeço sempre por ter uma voz diversa, é uma dádiva.

Certamente hoje, por conta dos problemas da indústria musical, as bandas estão excursionando mais, e o seu instrumento está sendo mais usado, não?

É verdade que a indústria mudou muito. Em 2005, quando houve o maior impacto das novas tecnologias, a indústria mostrou que não estava preparada para enfrentar aquilo. Depois, foi se reorganizado, tornou o iTunes um negócio viável. Não se vende mais 1 milhão de discos, e as companhias ainda estão desequilibradas, buscando alternativas. Eu encaro o problema da seguinte forma: meu trabalho é fazer música, manter um olho na questão da criação, da invenção musical. Mas não deixar de olhar também para o que acontece na forma como essa música chega às pessoas.

Como foi para vocês se reestruturarem após a morte de Stuart (Cable, ex-baterista e um dos criadores da banda, encontrado morto em Aberdare em 7 de junho deste ano, aos 40 anos)?

Stuart foi meu amigo de infância. Todo mundo fez sua vida. Tornamo-nos pais, fomos a casamentos uns dos outros, batizados. Mas nunca a gente pensa algum dia em estar no funeral de um amigo tão próximo. Foi um choque. Nós nos falamos alguns dias antes. Sempre foi um grande personagem. Amava as festas. Tivemos nossas diferenças profissionais, ele saiu da banda anos atrás, mas não se esquece um amigo.

Ouvindo seus discos, nota-se que não são nunca muito parecidos. É uma ambição sua, continuar mudando sempre?

É importante tomar a decisão de desafiar a si próprio. Às vezes funciona, às vezes não, mas a decisão de se desafiar e sair de nossa zona de conforto é a essência da arte - fazer a própria trajetória, de certo modo, desconfortável. Mas nossos discos são um desenvolvimento, as mudanças são sutis entre um e outro. É verdade que somos mais rock"n"roll ao vivo. Os shows têm mais excitação, é natural.

Hermano

O Stereophonics chega à América do Sul com um argentino na "bagagem". Javier Weyler, ex-baterista do Claroescuro, estudava em Londres quando foi convidado a integrar a banda, em 2004

STEREOPHONICS

Citibank Hall. Av. Jamaris, 213. Mais informações: 4003-6464.

Dia 18/11, às 21h30. Ingressos: de R$ 70 a R$ 200.

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