Robinson Crusoe em Marte

Ridley Scott talvez só perca para o Woody Allen na quantidade de filmes que faz. Como no caso de Allen, a prolixidade afeta a qualidade, que varia entre grandes filmes, filmes mais ou menos e filmes que eles prefeririam esquecer.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2015 | 02h00

A diferença é que Scott se especializou em superproduções e quando erra, erra espetacularmente, enquanto Allen, comparado com ele, é um miniaturista. Scott fez coisas fantásticas como Os Duelistas, Alien, Blade Runner, Thelma & Louise e aquele pouco valorizado filme sobre as Cruzadas, mas o seu O Conselheiro, por exemplo – no qual a Cameron Diaz faz sexo com um automóvel –, já foi eleito um dos piores filmes de todos os tempos.

Perdido em Marte é um dos bons. Seu lançamento coincidiu com a noticia de que havia água líquida em Marte, o que serviu como uma promoção inesperada para o filme, mas, ao mesmo tempo, o datou.

Se o astronauta abandonado soubesse, em 2035 (quando, li não me lembro onde, se passa a história) que tinha água à vontade sem ter que produzi-la artificialmente, seu desterro seria mais fácil. Mas o filme ficou pronto antes da notícia da água.

Em geral, a experiência do astronauta no filme é verossímil, de acordo com comentaristas científicos, mas há alguns enganos.

Uma ventania como a que força a suspensão da missão seria impossível na atmosfera rarefeita de Marte. E, mesmo protegido pelo seu traje espacial, o abandonado não sobreviveria à radiação intensa e contínua do sol. No mais, dizem os cientistas, tudo que se vê no filme é possível, até o improvável final, que eu não vou contar como é.

Parte do fascínio de Perdido em Marte é o mesmo que nos atrai em todas a versões da mesma história, a de um ser sozinho, reduzido ao seu engenho para domar a natureza e sobreviver, no fim um elogio à tenacidade humana.

Robinson Crusoe de novo, desta vez em Marte. Irresistível.

E é bom saber que, em 2035, o politicamente correto terá triunfado no espaço e na Terra.

A comandante da missão abortada é uma mulher, um dos seus comandados é hispânico, entre os técnicos e cientistas que guiam as missões a maioria é de negros e asiáticos – e até a China dá uma mão.

 

 

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