Robespierre e seu executor

Da série Diálogos Impossíveis.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Maximilien Marie Isidore de Robespierre foi um dos líderes da Revolução Francesa. Chamado de "O Incorruptível", foi o principal teórico e porta-voz dos jacobinos, a facção mais radical dos revolucionários, em oposição aos girondistas, mais moderados. Exigiu o guilhotinamento do rei e da rainha e instalou o "Terror", que liquidou opositores da Revolução, ou apenas suspeitos de se oporem à Revolução, numa orgia de sangue que não poupou nem seu ex-companheiro Danton (o Trotski para o seu Stalin, numa analogia um pouco forçada). Pouco depois da execução de Danton, o próprio Robespierre foi preso por seus inimigos girondistas e condenado à morte. Na mesma guilhotina.

***

Imaginemos que na véspera da sua execução, Robespierre recebe na cela a visita de um verdugo oficial. Que se apresenta:

- Louis-Phillipe Affilè

- Enchantê.

- Seu admirador.

- Muito obrigado.

- Foi por sua causa que entrei para o serviço público. Foi ouvindo seus discursos que me decidi a servir a Revolução.

- A Revolução agradece.

- Sou obrigado a fazer esta visita, antes de cada execução. Para, por assim dizer, preparar o terreno...

- Você quer dizer, a minha nuca.

- Também devo medir a sua cabeça, para saber o tamanho do cesto. O farei com a devida reverência. É a cabeça mais brilhante da República.

- Esteja à vontade. Minha cabeça não pertence mais à República. A República não a quis mais. Na verdade, minha cabeça já pertence a você.

***

- O senhor prefere raspar a nuca?

- Como foi com o Danton?

- Ele disse que uma navalha antes da lâmina da guilhotina seria uma apoteose do supérfluo.

- Ah, as frases do Danton. Ele foi o mais frívolo de nós dois. Se contentava em fazer frases. Eu queria fazer história.

- Maria Antonieta pediu para manter todo o seu cabelo. Disse que era por razões sentimentais. Sentia-se muito apegada a ele.

- Você também foi o executor da Maria Antonieta?

- Sim. Foi no meu turno. Nós os verdugos não temos tido descanso. O senhor nos dá muito trabalho. Ou nos dava...

- Tudo pela Revolução.

- Eu sei. É por isso que mantenho este emprego, apesar das lamúrias dos condenados, das ofertas de propina... Tudo pela Revolução.

- O Danton e a Maria Antonieta ofereceram propina para não serem guilhotinados?

- O Danton não. A Maria Antonieta sim. Uma fortuna. Resisti. Também sou incorruptível . Inspirado no senhor.

***

- E se eu lhe oferecesse uma fortuna para me ajudar a fugir?

O verdugo fica em silêncio. Depois sorri.

- Eu diria que o senhor está me testando. Para saber se minha admiração pelo senhor é sincera. E se eu sou mesmo incorruptível, como o senhor.

- E se eu insistisse na oferta?

- Então todas as minhas ilusões ruiriam. Minha admiração pelo senhor desapareceria e eu não acreditaria em mais nada. Nem na Revolução.

Silêncio. O verdugo pergunta:

- Foi um teste, não foi?

- Claro - diz Robespierre.

- E então, vamos raspar a nuca?

- Só uma aparadinha, para o corte da lâmina ser limpo.

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